Não tinha nada. Apenas um lindo sorriso!

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Fotografia © Afrah | Cartaz @ Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Afrah | Cartaz @ Laura Almeida Azevedo

Encontrei um sorriso perdido no rosto de uma criança, que chorava sozinha, na berma de uma estrada. As lágrimas, do frio, rolavam-lhe pelo rosto cheio de marcas de tudo o que lhe faltava. Tinha também demasiadas tatuagens, feitas com os desenhos de tudo o que lhe sobrava. As marcas do tempo e as dores eram mais do que evidentes naquele rosto de criança carente, onde, mesmo assim, restava espaço para um sorriso.

Olhei-a atentamente, sem que ela me visse!

Tinha os olhos escuros. Tão negros, quanto negra era a sua vida. Tinha o rosto sujo, numa mistura de lágrimas e de pó que o mundo espalhava sobre ela. Era um rosto que devia ter a beleza e a pureza de uma criança, mas estava envelhecido pelo peso do sofrimento.

Naquela face não existia a pele de seda, que habitualmente veste as crianças, que têm um saco cheio de sonhos. As crianças que conhecem o calor de um abraço. As crianças que sabem dizer que existem coisas de que elas não gostam. Crianças que, tendo tudo, são capazes de chorar dizendo que lhes falta algo. Enquanto eu tinha ali, à minha frente, o rosto de uma criança que nada tinha. O rosto de quem não sabe onde fica a sua casa. A criança que se esconde, ao fundo da rua, num cartão velho de uma televisão luxuosa e que durante a noite trava batalhas ferozes contra o frio, que teima em atacá-la todos os dias.

Aquele corpo era frágil e débil. Estava vestido com roupas que não eram suas e que não sabia a quem pertenciam. Roupas que encontrou, enquanto revoltava mais um caixote do lixo. Procurava os restos do mundo para enganarem a fome. Tinha escolhido duas maçãs murchas, uma banana negra e pouco mais. Deu um pontapé num saco de papel, que de imediato se desfez e espalharam-se pelas ruas aquelas roupas. Roupas que tinham pertencido a quem não lhes dava valor. Roupas quase novas, porque quem as atirou fora tinha dinheiro para comprar o que não lhe fazia falta.

E ela, a pobre criança com frio e fome, sentia-se uma princesa vestida com aquelas roupas. Uma blusa vermelha que ela usava como vestido. Um casaco preto que lhe servia de gabardina. Umas botas castanhas que lhe fugiam dos pés. Deveriam ter uns dois ou três números mais do que o tamanho dos seus pés, doridos de tanto caminhar. Ela viu-se ao espelho, na montra de uma loja fina por onde passou, e sentiu-se uma rainha. Só os olhares de censura, desprezo e reprovação, que vinham do lado de dentro, lhe fizeram lembrar que lhe faltava tanta coisa, que aquele mundo nem sequer conhecia. Aqueles olhos, que estavam do lado de dentro, habituados a ver só o conforto e o luxo não entendia aquela pobre criança, para a qual umas roupas velhas e abandonadas na rua eram a sua maior riqueza.

O dia estava frio, a tarde prometia chuva e a noite seria ventosa. Mas aquela criança continuava a caminhar, pela rua abaixo, com o mais lindo sorriso que eu já tinha visto. Aquela criança sorria para a vida, que lhe roubava quase tudo. A vida que só sabia proteger os meninos ricos, que não conheciam o sabor do sofrimento e da fome, e que, mesmo assim, se queixavam e faziam birras para exigir aos pais mais um brinquedo novo. Aquela criança, que nunca teve um brinquedo e que todos os dias passava fome e frio, desfilava ali à minha frente, vestida com um lindo sorriso e com uns maravilhosos trapos que o mundo já não queria.

Não tinha nada, apenas um sorriso maravilhoso, que me ensinou a sentir gratidão por tudo o que tenho.

Acelerei o meu passo para ficar, lado a lado, com ela. Precisava que ela me visse, que reparasse em mim. Precisava abraçar aquele sorriso para que ela percebesse o tamanho da minha felicidade, por me ter cruzado com ela…

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.