Desperate for you voice

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O aroma da sala inebria-me e eu volto a olhar na tua direção. Não sei onde estou, nem quem são as pessoas que me rodeiam. Apenas te reconheço a ti. Encostado à parede, com o ar descontraído, prendes a atenção de mais de metade das mulheres na sala, mas, quando olhas em redor, é em mim que te concentras. Sinto que medes cada um dos meus gestos e que os gravas num canto recôndito da tua memória, mas estranhamente isso não me incomoda. És meu e eu sou tua. Não sei como, mas tenho essa consciência desde o primeiro momento em que o teu corpo se cruzou com o meu nesta estranha atmosfera.

A música começa a tocar e eu fecho os olhos, deixando-me embalar pela cadência constante de um qualquer ritmo ainda desconhecido, mas que me leva numa viagem tortuosa pelos desejos da minha mente. O meu corpo move-se como se tivesse vida própria e eu deixo-me ir, lentamente, numa corrente de musicalidade interior.

Mas tu trazes-me de volta à realidade, quando envolves a minha cintura com as tuas mãos longas e firmes e me puxas para ti. Os nossos corpos estremecem quando se tocam, mas ignoramos o seu sinal e continuamos a dançar, devagar, como se a velocidade com que nos movemos ditasse o fim precoce da nossa música. Passas a mão pelo meu cabelo e eu suspiro junto ao teu pescoço. Continuo de olhos fechados sentindo o teu coração bater, num ritmo ligeiramente mais acelerado que o meu. Estarás nervoso? Tão temeroso como eu que este momento acabe? Abraças-me com mais força e juntas os teus lábios ao meu ouvido, ao mesmo tempo que sussurras a letra da nossa canção. O choque é tremendo e dos meus olhos adormecidos brotam lágrimas tristes e silenciosas.

Percebo, finalmente, onde estou e o que irá acontecer em breve e olho-te nos olhos pela primeira vez desde que cheguei a este lugar. Prometo-te, sem usar palavras, que nunca te esquecerei e, numa tentativa desesperada de prolongar o momento, junto os meus lábios aos teus e murmuro vezes sem conta que te amo. Nasci para o fazer e sei que passaria uma eternidade a dizer-to.

Um barulho ensurdecedor interrompe-nos e baralha os meus pensamentos. Onde estou? O que aconteceu? São perguntas que bailam no meu cérebro e que me pesam no peito. Tu sorris-me e acenas levemente, enquanto o ambiente se dissolve no ar e eu deixo de ser tua e tu de seres meu.

Acordo na minha cama, embrulhada em lençóis macios que me lembram o toque da tua pele. O telemóvel ao meu lado dá sinal e o barulho, que interrompeu o meu sonho há pouco, não é mais do que a nossa canção, apenas num tom diferente. O número é desconhecido e eu atendo, alimentando a vã esperança de que a voz do outro lado seja a tua. Não é… as lágrimas tristes voltam e tocam-me os lábios que, em sonhos, experimentaram os teus, enquanto eu me escondo da vida debaixo dos lençóis, cantando baixinho a música que sussurraste para mim, esperando uma chamada tua em que me digas simplesmente: «Eu sou teu e tu és minha.»

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MIRIAM AFONSO, a Mi
Escorpiã até ao tutano. Bem disposta e de sorriso fácil. Apaixonada pela vida e pelos outros. Prefere frio ao calor, chocolates a gomas e livros a sapatos. «Os Maias» são um bocadinho como a bíblia lá por casa e «O Principezinho» povoa cada espaço vazio nas estantes. É vizinha de um dos bairros mais bonitos do mundo - o do Amor - e escreve para se encontrar.