Fui mulher à força

Texto vencedor | Desafio de escrita: «Envelhecer»

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Fotografia © Alexandru Zdrobău | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alexandru Zdrobău | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Já fui menina. Já andei à chuva. Pisei poças de água, como quem salta sobre um riacho. Subi às árvores. Andei descalça sobre a relva. Senti o cheiro a terra molhada, depois da primeira chuvada. Deliciei-me com o perfume das flores, numa manhã de Primavera. E foram todos esses pequenos momentos mágicos que deram cor aos meus primeiros anos de vida e aos meus sonhos.

Tão feliz que eu era. Não percebia a importância das horas. Não precisava de relógios. O tempo era o que o meu coração queria. Um abraço poderia demorar uma hora e um beijo uma eternidade. O dinheiro era fantasia para adultos. Eu comprava tudo o que a vida podia ter apenas com os meus sonhos. A única moeda de troca que conhecia eram os sorrisos de quem me dava felicidade, a qualquer hora do dia. Emprestava ilusões e cobrava carinho. Era feliz apenas com um vestido de folhos. Gostava de me fantasiar com o casaco da minha mãe, que me chegava aos pés. O mundo dos adultos era mesmo só uma fantasia que eu gostava de usar. Era feliz, sem saber o que era a felicidade. O guarda-chuva era um brinquedo. A chuva, uma diversão. A vida emprestava sorrisos nesse tempo.

Só que o tempo não volta atrás. No tempo em que era menina, traduzia sonhos para um idioma que ninguém entendia. Fazia a interpretação das ilusões para explicar aos adultos que viver era a coisa mais simples do mundo. Fui a miúda sonhadora que cresceu a colecionar sonhos. Sonhava enquanto saltitava pelos prados verdes, onde cresci. Os prados que eram da cor dos meus olhos. Os olhos de quem via o mundo apenas vestido de cor-de-rosa. Vivia no mundo da lua. Brincava com as pedras que encontrava na rua. Construía castelos com elas. Fazia muralhas para me esconder da minha timidez. Viajava pelo mundo, ali, sentada na entrada da minha casa, que em sonhos eu transformava numa mansão.

O mundo real não tinha entrada no meu castelo de sonhos. O mundo era do tamanho da minha imaginação. Colecionava ilusões que eu própria desenhava. Vivia num paraíso, que eu teimava em não dividir com mais ninguém. Ali, tudo era perfeito. Ali, não entrava arrependimento e muito menos sofrimento. Os anos passavam sobre a minha inocência. A vida ia-me mostrando uma realidade que eu não queria ver. A menina dos olhos doces queria alimentar-se de sonhos e afastava de si as amarguras da vida.

Mas a vida insistia que eu tinha que envelhecer. A vida dizia-me que nem só de sonhos poderia viver. A vida pintava os dias de outras cores. Os sonhos começavam a deixar de ser cor-de-rosa. Por vezes, já neles existiam alguns salpicos negros. Salpicos de lágrimas que me visitavam durante a noite, contra a minha vontade, quando, na solidão do meu quarto, não conseguia abraçar os sonhos e me sentia perdida no mundo real. Não encontrava a porta das minhas ilusões. O mundo que sempre fora só meu, agora, começava a fechar-me as portas. A vida, que sempre dizia que eu deveria aproveitar a vida, agora atirava-me para este abismo que era tornar-me mulher adulta, despedindo-me da menina sonhadora.

O tempo pediu-me — ou, melhor, exigiu-me — que crescesse. Convidou-me para ser mulher. Entregou-me o manual de vida dos adultos. E eu, ingenuamente, procurei nele pelos sonhos, pelos meus sonhos de criança. Procurei pelas brincadeiras da gaiata sonhadora. Muito triste, cheguei à conclusão de que quem escreveu estes ensinamentos se esqueceu desse detalhe. Por isso, é que a vida se torna cinzenta com o passar dos anos.

Fui mulher à força, por ordem da vida. Mas, no meu castelo, ainda mora a vontade de sonhar. Essa nunca irá morrer. Jurei à vida que, em mim, sempre existiria uma parte da menina sonhadora. Mas ela é tão teimosa, que sempre me faz lembrar que o tempo não volta atrás.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.