Um sofá, uma conversa e o acreditar

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Fotografia © Andrew Branch | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Andrew Branch | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Vejo-te chegar.

Ombros descaídos, quase tocando o chão, olhos murchos, tristes, sem brilho, o cabelo que te encobre a cara, o desânimo e a vontade de chorar.

O meu coração de mãe fica pequenino do tamanho de uma ervilha. Que se passará? Logo tu, que és tão alegre, sorridente.

Espero que digas algo, com toda uma vontade de te abraçar e de questionar. Mas espero, com o coração nas mãos, que essa vontade parta de ti.

— Olá, fofinha linda!

Corres para mim, para os braços que já te abri. Aninhas-te em mim, naquele sofá que se torna gigante quando lá queremos caber as duas, e afundas-te no meu abraço! Assim ficas, ficamos, em silêncio…

— Mãe, hoje a aula de ténis correu mal. Não consigo, por muito que me esforce, fazer aquele movimento. Nunca vou conseguir.

Oiço com atenção a tua descrição sempre dando foco ao que não consegues.

— Olha, e servir já consegues? — pergunto-te eu com a esperança de que percebesses onde queria chegar. Que ninguém nasce ensinado e a fazer logo bem. Tudo é um processo contínuo e a persistência, o acreditar e a motivação são o fundamental para se conseguir (quase) tudo nesta vida.

— Sim, mãe, já o faço muito bem até. — Dizes-me com um sorriso de quem entendeu a mensagem.

Tempos se passaram e eis que vejo novamente aquela nuvem negra e densa a assomar-se ao teu redor.

— Mãe, queria tanto viajar, correr o mundo, sair, andar de moto 4, saltar de um avião… Tudo isso que já fizeste e adoraste. Ter uma mansão com 4 pisos, em que um deles era só para jogos e brincadeiras. Com consolas e jogos para jogar com os meus amigos, com uma piscina, e uma discoteca. E cavalos, vários cavalos e cães. Mas nunca irei conseguir ter isso! É preciso muito dinheiro. É impossível. Queria tanto ser rica!

Sorrio, imaginando a casa e a vida dos teus sonhos no alto dos teus tenros anos de idade ainda, e digo-te serenamente e olhos nos olhos:

— Acredita! Acredita que tudo é possível, que podes ser feliz sem esse tudo e que tens em ti tudo o que precisas. E, sendo assim, filha, do que mais precisas tu para seres feliz

Absorves as minhas palavras e respondes-me:

— Ora, então, mãe, se eu tenho tudo em mim, a resposta à tua pergunta é que preciso de “tudo”, certo?

Com um sorriso terno, volto ao diálogo:

— Aqui, não há respostas certas ou erradas. Há a tua resposta, a tua perceção da realidade. E esta tua resposta é interessante e adequada à fase em que estás agora. Um dia, sei que me darás uma resposta diferente.

Intrigada e pensativa, mas com uma auto-confiança que não foi destruída com a minha resposta e sempre acreditando que tudo era possível, foste seguindo o teu caminho, trilhando a estrada da tua vida.

Vários anos volvidos… O mesmo sofá, o mesmo abraço, o mesmo amor que nos une e a conversa que ressurge.

— Mãe, não tenho uma mansão, nem sei se algum dia a terei,. Não sei tudo o que queria já saber. Não viajei por todos os sítios que queria nem sei se um dia os visitarei a todos. Mas, sabes, sou feliz com o que tenho e acredito que ainda vou ver e fazer muito mais.

Com o coração a transbordar de alegria, de orgulho da minha menina, percebendo que agora, sim, viria a resposta que aguardava, repito:

— Acredita que tudo é possível, que podes ser feliz sem esse tudo e que tens, em ti, tudo o que precisas. E, agora, filha, de que precisas mais?

E tu, com aquele brilho e vivacidade no olhar que te carateriza, respondes:

— De mais nada!

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.