A Rapariga que sonha pintar o Mundo – Parte 1

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Fotografia © Christopher Campbell | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Christopher Campbell | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Já se avista o pôr do sol no horizonte – a cor alaranjada refletida no corpo e no solo. Ela caminhava, descalça, pelos enormes campos e jardins da sua terra. Estava esgotada. Cansada da sua vida, dos seus pensamentos. Nas suas mãos agarrava ambos os sapatos de cabedal negro, que cambaleavam à medida que dava um passo. Descalça, caminhava sobre a terra húmida. Ao seu lado, as ervas daninhas. Uma flor ali, outra acolá. Não bastava tão pouca cor.

Ela queria mais cor.

No passado, tinham-lhe dito que, com o poder de acreditar, tudo poderia mudar. Nunca colocou os seus desejos em prioridade, mas talvez agora seja o momento certo. Não era mulher de si própria, mas era pelos outros. Dava o seu coração e alma pelos que a rodeavam – preferia não ter do que ver os outros não terem. E assim o era. Dava do seu e esquecia a sua vida. Podia andar perdida, sem rumo e sem capacidade de construir a sua vida. Mas… é do bem que se constrói a vida, certo?

Olhava os céus e as árvores dançantes. Fitava os pássaros cantarolarem nos ramos e os esquilos descerem os troncos das árvores, escondendo as suas bolotas em pequenos buracos cavados por eles. Aí, aproximavam-se os corvos, que rasgavam o céu na direção desse esquilo. E bicara-o. O esquilo assustou-se e, rapidamente, escondera-se um pequeno orifício do tronco, enquanto que o corvo lhe roubava a bolota enterrada. E voara. Desaparecera com a bolota.

Ela encarava o acontecimento, revoltada. O esquilo saíra do pequeno orifício e dirigira-se até onde escondera a bolota. Nada ali estava.

Rapidamente, o olhar da rapariga entristecera. Sentira um vazio no seu íntimo e um aperto na sua respiração.

Talvez estivesse errada, afinal… A vida não se constrói com bondade, mas sim com maldade. Vira que, ali, o corvo roubara o alimento ao esquilo e, pensando bem, é mesmo assim que a vida funciona. Roubamos um pouco dos outros para nos sentirmos mais felizes. Roubamos a cor uns aos outros para colorir a nossa própria vida. Andamos uns sobre os outros para agarrar a oportunidade que melhor nos sabe – que nos dá um sabor mais doce -, mas acabamos por cair. Sempre!

«Não me sentiria bem em abdicar da minha bondade…», murmurava para si. «Irei sempre ser infeliz? Porque não sei dizer um não a um grito de socorro? Os restantes humanos conseguem…»

Talvez porque… seja uma boa pessoa.

E quer colorir. E vai colorir-se, no entanto, a si própria e sem roubar a cor dos outros.

Ela não quer roubar lugares, quer pertencer.

Mas ela não se sente capaz. Já passara por tanto.

Esta noite fora a gota de água. Resolvera fugir e ver o mundo da sua forma. Ela quer pintar aquele negro com uma cor viva – ela quer pintar o seu coração e a sua alma. Está cansada de todo aquele sentimento de podridão interior.

No seu bolso, sentira uma vibração contínua. Ali, estava o seu telemóvel que guardara após a despedida de solteira da sua amiga Beta. Os seus pés ainda doíam de toda a dança e do peso do seu corpo a curar-se de uma bebedeira. Com os seus dedos finos removera o telemóvel de perto dos seus seios e, de seguida, desbloqueara o ecrã com o seu código secreto.

«Vais arrepender-te, Ema», lera para si mesma a mensagem.

Ele não desistia. Ele queria-a de volta, mas de uma forma agressiva.

O seu corpo vibrara com o receio de que ele a fosse encontrar. Voltara a encarar adiante, onde já avistava uma estrada. Ele não a conseguiria encontrar se ela escapasse das suas garras – ou da sua vida. Ela quer pintar a sua vida. Não quer percorrer a vida dele.

Está na altura.

Ema encontrara uma bicicleta encostada a uma cerca de madeira. Era cor de rosa, tal como a cor dos seus lábios. Cerrara o seu olhar por momentos à procura de coragem.

— Vou ou fico? — Questionara-se, soltando tais palavras contra o vento. A estrada estava deserta, sem carros. Só ouvia o vento a soprar e uma resposta soara momentaneamente.

— Vai.

Uma voz corroera-lhe o silêncio relaxante e o seu rosto redondo e sardento voltara-se para trás. Ali, deparara-se com um rapaz por volta da sua idade e desconhecido.

— A vida vai dar-te sempre duas escolhas: a positiva e a negativa. — Prosseguira o rapaz, como se estivesse a ler a sua mente. Ela olhara-o de cima a baixo. Era bonito e charmoso. O seu cabelo castanho-claro puxado ao lado, os seus olhos verdes e brilhantes encaravam-na com um olhar sério. Ema sentira-se um tanto desconfortável, desviando o seu olhar para o chão. — Cabe-te a ti pintares o teu mundo. – Prosseguira.

Ema estacara e encarara-o nos olhos.

— Quem… — balbuciara Ema — és tu?

O rapaz não lhe respondera e, com um sorriso, indicara com o seu dedo indicativo a bicicleta ali encostada.

— Podes escolher essa bicicleta aí encostada e tirá-la de alguém que realmente precise ou, então, podes pensar em ti e fugir com ela. A vida pode estar a começar neste momento para ti. Agarra essa oportunidade. Talvez o destino a tenha posto no teu caminho para que tu acordes. — Continuara o rapaz, sem responder à sua pergunta. — O destino talvez queira que pintes o teu mundo e uses as tuas próprias cores. Apaga esse negro em teu redor. Vales mais do que isso. Vai. Pega nessa bicicleta.

Ema não respondera, optando por tomar posse da bicicleta. Desviara o seu olhar do rapaz, encarando-a por momentos.

«Talvez ele tenha razão…», pensara para si. E subira para a bicicleta. Num espaço de segundos, voltara-se para trás para agradecer, mas já estava sozinha. Ele já não estava lá. No entanto, no lugar dele estava um esquilo que acabara de pousar uma bolota no chão, voltando a fugir para uma das árvores ali perto.

Ema, em suspeita, agarrara a bolota, guardando-a no bolso. E, com um olhar semicerrado, ganhara coragem.

Começara a pedalar.

Lê a Parte 2 desta história aqui.

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.