Entrevista: «Se não fores o teu orgulho, não serás de mais ninguém»

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594_Entrevista_RitaG_AndreiaFPouco preparadas para um desafio do género e com o acréscimo de ser em direto, eis que surge uma entrevista entre duas pessoas que se conheceram na plataforma Desafio-te — entre mim, a Rita Gonçalves, e a Andreia Fernandes. Duas pessoas que procuraram aprofundar esse conhecimento e surpreender-se a si próprias (ou não). Arranca, assim, a entrevista mais improvisada do mundo sobre coisas da vida:

P: Olá, F. Já nos conhecemos da plataforma. Espero que não te importes que te chame F na entrevista. Preferes Andreia?

R: Olá, Rita. Tudo bem. Gosto de F. Podes manter.

P: No dia de hoje, a esta mesma hora, achas que te conheces por completo?

R: Acho que nunca me vou conhecer por completo. Parte do que somos é conhecimento adquirido, em conformidade com as situações a que a vida nos leva. Portanto, vou ser sempre a pessoa que me conhece melhor, mas só até à minha última versão. Amanhã é sempre outro dia…

P: E esse teu conhecimento sobre ti permite reconhecer que tens defeitos que nem toda a gente tolera. Quem não gosta de ti não gosta porquê?

R: Permite, claro. Tenho noção dos meus defeitos, mas acho que, se fôssemos todos boas pessoas, lineares, com as mesmas características, não tinha qualquer piada. Conhecer alguém seria sempre a mesma coisa. Era um aborrecimento. Os meus defeitos definem quem sou tanto como as minhas qualidades, e em tempos custava-me muito que não gostassem de mim. A idade tem as suas coisas boas e, hoje em dia, já me passa muito ao lado. A menos que goste da pessoa. Aí, parte-me o coração que não goste de mim. O mundo é grande, e eu passo a imagem de nariz empinado. Quando me conhecem, pode afugentar… Não sei. Mas, olha, com tanta gente no mundo, também não se pode sempre gostar de mim. É tranquilo. Quando gostam, que gostem muito. É isso que conta.

P: Para ti, o destino é algo que já estava traçado?

R: Boa pergunta. Oscilo ali, entre o sim e o não. Acho que o destino é o que fazemos dele. Entre felicidade extrema e desgraças, já aprendi que tudo pode mudar ao segundo, e há coisas pelas quais não fazem sentido nenhum passar e, mais tarde, somos o que somos porque passamos por elas. Há outras que dás como certas, mas amanhã mudam sem qualquer sentido. Haverá um plano para isso? Às vezes, faz-me sentido que sim, que temos de sentir isto hoje para perceber aquilo amanhã, como se tivesse de ser aquele o caminho. Ali, pelo meio, acho que a vida se arruma sozinha. Anda tudo num desgoverno, mas eventualmente há coisas, e pessoas, que vão ter de acontecer. Mais tarde, fará sentido.

P: Se tivesses que dar nome a ti própria, qual seria? Isto num mundo em que não seriam os pais a batizar os filhos e em que cada um, com a sua devida maturidade, fizesse o seu próprio registo civil.

R: Pergunta complicada. Afeiçoei-me a Andreia. Acho o Fernandes muito comprido. Gosto mais do Santos. Mas gostava de me chamar, tipo, Leonor Cunha ou assim. Sei lá. Acho que nesse mundo ia ser a bandalheira. Haveria certamente pessoas a chamarem-se Morango Panqueca Esteves de Abril… Era certamente mais divertido, mas não faria muito sentido, embora entenda quem tenha traumas com os nomes. [risos]

P: Achas que esse mundo seria uma utopia? Ou acreditas que a liberdade deve ser moderada?

R: O mundo já é uma utopia sozinho, sem a Morango de Abril! Mas eu acredito que a liberdade do outro acaba onde limita a minha. As regras devem existir, mas não serem tipo traços contínuos desta vida. Devem ser mais “guias” do que regras. Para te falar de liberdade tínhamos de a enquadrar em mil cenários. Todos eles têm conceitos de liberdade mutáveis entre si e para isso estava aqui a noite inteira. No limite, a resposta geral é que devia ser um direito adquirido para todos.

P: Preferes ser feliz ou fazer os outros felizes?

R: Ambos. Acabo sempre mais por fazer os outros felizes do que ser feliz. Mas ambos seria o ideal.

P: Qual o teu sentimento preferido?

R: Amor. Sempre. Em todas as vertentes em que ele aparece.

P: Qual é a tua palavra preferida?

R: Saudade. Curiosamente, é uma coisa muito portuguesa. Em inglês, por exemplo, há «i miss», mas quer dizer sentir falta. Não há uma palavra referente a este sentimento em muitas línguas.

P: Última pergunta e esta não é para 50.000 euros. O que te faz sentir orgulhosa de ti?

R: Ser quem sou, por tudo o que só eu sei que passei e ainda não ter dado em doida. Mas, a sério, gosto da pessoa que sou, gosto de ser aberta às pessoas, de achar que sou do mundo e de adorar viver. Essencialmente, fico orgulhosa e grata sempre que consigo alguma coisa que quero muito, quando alguém que ajudei chega ao objetivo… Mas, no fundo, se não fores o teu orgulho, não serás de mais ninguém.

P: Obrigada pela partilha, F. Foi, e tem sido, um prazer.

R: Igualmente. Espero que o seja por muito tempo. Obrigada eu.

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RITA GONÇALVES, a filósofa
25 anos. Mais 5 do que 20. Formada em Filosofia pós-graduada em Marketing e Comunicação Digital. A sua formação é tão distinta como os seus talentos. É muito mais sentir do que ser, uma Balança numa constante procura pelo equilíbrio. Tem no silêncio a sua melhor arma contra a ignorância do mundo. Tem nas palavras escritas a chave para a sua melhor expressão. Tanto prefere o sol, o mar e alguém para amar, como o inverno, a lareira e um chocolate à cabeceira. A Rita é mistério, pensamento e amor.