Almas iguais não se conquistam. Pertencem-se

Texto vencedor | Desafio de escrita: «Naquele inverno»

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Fotografia © Hernan Sanchez | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Hernan Sanchez | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

«Almas iguais não se conquistam. Pertencem-se.»

Foram estas as palavras que deixaste escritas, num talão de multibanco, em cima do tapete da sala. Foram estas as palavras que li assim que acordei. Experimentei, instantaneamente, um frio que nunca havia sentido – e não era pelo facto de estarem menos dois graus lá fora. Não. Era um frio diferente. Um frio que não gelava o corpo. Era um frio que gelava a alma. Que congelava o sangue nas veias, que retirava o oxigénio que nos permitia respirar. Ainda estava nua. E, agora, já nem a paixão me cobria a pele. Tinha a pele despida. Despida de roupa, por fora, e, por dentro, despedida de sentir. Só tive tempo de correr — o mais depressa que consegui — até encontrar o tampo da sanita para levantá-lo e expulsar o vómito, que me invadira as entranhas, segundos antes. Fiquei ali, durante alguns minutos. A vomitar o que, horas antes, dias antes, sentira e que, agora, era obrigada a expulsar de mim. O que não podia mais sentir. O que não me deixaste viver. Recompus-me na mesma proporção das minhas forças. Sentia-me um trapo velho e assim me deixei ficar. Saí da casa de banho, caminhando sobre os pés – descalços e frios – como alguém que desaprendera o andar. Voltei à sala gelada e cobri a pele com o cobertor que antes tinha servido para nos aquecer o corpo. E a alma. Deixei-me cair para o sofá de veludo preto, que estava em frente à lareira. Apanhei o talão de multibanco que continha as tuas últimas palavras e amachuquei-o — com todas as minhas forças — até o esconder na minha mão. Cerrei o pulso – ainda com mais força — como se, assim, te conseguisse prender a mim; como se, assim , tendo-te ali, fechado na minha mão, nunca mais pudesses sair.

Mas pudeste sair. E saíste. Saíste daquela sala como saíste da minha vida. Tal e qual como entraste. De rompante. Sem autorização. E agora? Como se apaga uma pessoa que está tatuada na pele? Arranca-se a carne? Como se esquece uma pessoa que rege as batidas do nosso coração? Pede-se que deixe de bater? Como se expulsa uma pessoa que habita em nós? Despejamo-nos? De nós?

As lágrimas inundavam-me o rosto e acumulavam-se na pedra que o tapete deixava ver.

— Almas iguais não se fazem isto, Duarte. – Disse, em tom monocórdico.

Fechei os olhos e corri para fora daquela sala gelada. Já não queria estar mais ali. Já não havia vida ali. Já não havia nada mais para viver ali. Fui ter connosco. Quando ainda não havia um nós, mas havia vida. Duas vidas cheias de vida. Entre as lágrimas que me petrificavam o rosto, surgiu um vago sorriso enquanto recordava o dia em que falámos pela primeira vez. Há nove, longínquos, dias. Naquele passeio junto à entrada do hotel. Tínhamos acabado de participar na reunião da empresa. Zurique era lindo. Antes de ir, tinha imaginado que seria uma cidade fria no inverno, mas nunca pensei que fosse tão fria. Esperava-me uma jornada de duas semanas de (muito) trabalho, pouco descanso e exageradas saudades do meu gato.

Era quinta-feira. Tínhamos aterrado há poucas horas e só houve tempo para um banho quente antes da reunião de trabalho. Cumprida a reunião, seguia-se o jantar, servido num dos restaurantes do hotel. Aproveitei o intervalo para ir à rua fumar e espreitar o telemóvel. Estava a enviar uma SMS à minha melhor amiga, quando dei pela tua presença. Acho que a mensagem nunca chegou a ser envida. Fiquei presa nos teus olhos e as tuas palavras ficaram presas na minha alma.

— Não consigo ver o teu corpo continuar a tremer de frio.

E, sem me dares tempo para responder, senti o teu casaco aconchegar-me. Desde esse dia, as nossas almas nunca mais sentiram frio. Afinal, Zurique podia ser uma cidade quente em pleno inverno.

E, nos oito dias que se seguiram, respirámos um pelo outro, reaprendemos a sorrir, passámos a conhecer de cor a outra pele e tivemos a certeza de porque é que ainda não tinha dado certo com mais ninguém. E, ali, no pico do inverno, vivi o meu melhor verão.

Até ler aquele talão de multibanco.

As malas estavam feitas. Tinha avião de regresso dali a três horas. Abri a mão — já dorida da imensa força que fizera — e atirei o papel para o fundo da lareira. Ali, arderiam as tuas últimas palavras, as memórias, a paixão, a esperança. Voltava sem ti e vazia de mim.

Cheguei ao aeroporto com destino a uma vida cheia de nada. Sentei-me no lugar que me estava reservado e preparava-me para me afundar na música mais melancólica que encontrasse na minha playlist, quando ouvi…

— Almas que se pertencem não se juntam. Fundem-se.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.