Dizem que é esperança

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Fotografia © Brooke Lark | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Brooke Lark | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Percorrera todas as lojas da cidade, desde as mais banais até às mais especializadas e das mais respeitáveis às menos recomendáveis. Procurara por entre prateleiras, das mais arrumadas às mais desarranjadas e das mais acessíveis às mais inalcançáveis. Procurara por entre caixas e caixinhas, sacos e saquinhos. Perguntara aos funcionários, desde o mais simpático ao mais sisudo. Perguntara a outros clientes, uns mais curiosos, outros indiferentes.

Parecia uma procura infindável. Não o encontrava em lado nenhum. Onde raios vendiam aquilo?

Sabia ser um elixir a que todos recorriam. Ou, pelo menos, tentavam. Nem todos encontravam o genuíno. Alguns encontravam apenas o adulterado. Aquele que era forçado ao mercado e que os mais incautos acreditavam ser o verdadeiro.

Tinha que ser manuseado com delicadeza, pois a sua composição era instável. Uns usavam-no frugalmente, outros exageravam na dose. Podia inspirar e motivar, mas também podia iludir e cegar. Ninguém sabia ao certo qual a quantidade certa a aplicar daquele elixir. Porém, todos o queriam.

Perdera a reserva que tinha e estava a fazer-lhe falta. Tinha que encontrar o tão almejado elixir. Precisava de dar um empurrão à sua vida. Precisava de ânimo para isso. Mas, desta vez, precisava de usá-lo bem. Se o encontrasse.

No passado, desvalorizara a sua importância e desperdiçara-o. Só que, agora, sabia qual era o segredo para obter melhores resultados. Não bastava apenas beber daquilo, tomar uma gota e acreditar que os seus efeitos seriam imediatos. Que não haveria necessidade de qualquer outro esforço da sua parte. Isso não era possível. E era por isso que muitos morriam não do mal que padeciam, mas da tentativa de o curar.

Era imprescindível absorver a sua essência e deixar-se envolver até às profundezas do nosso ser. Inspirar e expirar. Era preciso acreditar até senti-lo a fluir nas nossas veias e ser parte de nós.

Havia quem comparasse o seu efeito à chama de uma vela. Bela, cativante, persistente, mas também trémula, vulnerável e mesmo perigosa. Se, por vezes, a mais suave brisa podia apagá-la de vez, outras vezes, apesar de oscilar, resistia a uma tempestade. Dependia muito do tipo de vela de onde se erguia a chama.

Mas não encontrava o tão desejado elixir. Dizem-lhe que não está à venda. Dizem que a esperança não se compra. Que não vem em frascos. Que, se nos mantivermos no nosso caminho, talvez nos cruzemos com ela. Ou que, se calhar, talvez a esperança viesse ter connosco quando menos esperássemos.

Não sabia. Só sabia que agora não tinha nenhuma e estava sedenta. Precisava urgentemente de beber deste elixir que dava vida. Precisava disso para continuar a sua luta.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.