Quando a solidariedade nos bate à porta

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Fotografia © Emma Frances Logan Barker | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Emma Frances Logan Barker | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Mais um dia estava a chegar ao fim. Após o jantar, saboreava agora uma leitura. A música também me fazia companhia, ajudando a recordar bons momentos. No livro encontrava respostas para o próximo passo da minha vida: ser mãe. Bateram à porta e, de imediato, uma voz familiar.

— Sou eu, a vizinha do lado. Pode abrir?

Sim, eram um casal mais idoso. Viviam mesmo ao lado, paredes meias. Podiam ser meus pais. Os nossos cumprimentos casuais eram amistosos. Não havia mais do que isso. Abri a porta. Convidei a senhora a entrar.

— Boa noite. Desculpe, não quero incomodar. Nós vivemos aqui ao lado. Somos humanos… Temos reparado que, agora, a senhora está mais sozinha… Quero dizer-lhe que estamos aqui se precisar de alguma coisa… Vocês têm sido tão bons vizinhos!

Agradeci, quase sem palavras. Pela minha mente, passaram as noites de música, risos, conversas animadas… e o porteiro do prédio a bater à porta, alertando para o barulho que incomodava o vizinho que vivia por cima!

E acrescentei:

— Mas nós quase nem falamos!

— Pois, assim é que são os bons vizinhos. Não se metem na vida uns dos outros. E vocês tinham sempre umas músicas tão bonitas, umas festas tão animadas!

Eu estava espantada. Perguntei se o barulho não os incomodava.

— Barulho? Era tão agradável! Era uma boa companhia! — E continuava: — E como eu gosto de vos ver. Vocês são tão engraçados! Quando o marido sai, a senhora na varanda. Gosto tanto! E quando estão os dois à espera do táxi… que despedidas tão lindas!

Agradeci. Sentia-me de coração cheio! Não encontrei coragem para contar a verdade.

— Sabe, agora o meu marido tem missões fora da cidade. Vai estar mais ausente durante algum tempo. Às vezes, pode vir a casa, mas não pode ficar muito tempo… Só algumas horas. Poderá vir nos fins de semana, mas nem sempre.

— Eu só desejo que vos corra tudo bem. Vocês merecem! Mas, não se esqueça, nós estamos aqui ao lado. Somos humanos!

E não esqueci, nunca…

Nunca precisei desta ajuda, que me foi oferecida de uma forma tão inesperada, mas tão pura, tão sentida e tão carinhosa! E, na verdade, sim, fiquei eternamente grata!

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MARIA REIS, a avó-sorrisos
Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».