Tinha tudo, mas faltava-lhe tudo – 3ª parte

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Fotografia © Mariya Tyutina | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia ©  Mariya Tyutina | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

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Sentou-se à mesa com ele. E, de novo, o silêncio. Até que ele tentou quebrar o gelo.

— Posso perguntar-lhe porque se culpa tanto daquilo que aconteceu? Sinto que precisa de falar com alguém; que tem tanto guardado, dentro de si, que está prestes a explodir se não o partilhar com alguém.

Ela responde de imediato:

— Não está à espera que vá partilhar a minha vida com um estranho, pois não?

Pedro, cansado daquela frieza, diz-lhe:

— Não sei se já reparou, mas sou a única pessoa que está aqui consigo e parece-me que a única que poderá ter nos meses que se avizinham. Ou estarei enganado?

Cláudia não responde. Ele continua:

— Eu já percebi que está sozinha, que uma vida dedicada ao trabalho não lhe deu mais que bens materiais. Já percebi que lhe falta afeto, que lhe falta um ombro amigo, que lhe falta quem a possa ouvir. Mas, se continuar a afastar todas as pessoas que se tentam aproximar de si, vai viver assim para sempre. E, se é sozinha que quer ficar, então diga-me e, com a rapidez com que apareci na sua vida, também desapareço.

Cláudia engole em seco.

— Não é isso. Eu só não estou habituada a ter quem se preocupe comigo. Não sei lidar com isso. Durante anos, só aprendi a lidar com a minha própria solidão.

— Então, talvez estivesse na hora de substituir essa solidão e deixar que as pessoas se preocupem consigo. Eu podia ter ido embora, podia não querer saber, mas estou aqui, não estou? Não me pergunte porquê, mas senti que precisava de estar aqui. Há coisas que só se sentem e eu senti que precisava de estar do seu lado, embora não a conhecesse de lado algum.

Cláudia tenta digerir tudo o que acaba de ouvir. Nunca ninguém lhe tinha dito algo semelhante. Ou, se alguma vez o fizeram, ela já não se lembrava.

— Podemos tratar-nos por tu para começar?

— Claro. – Responde Pedro, com um pequeno sorriso nos lábios por as suas palavras terem tido um efeito positivo. — Vês? É assim tão difícil quebrar um bocadinho esse gelo de que és feita? Não podes ser um constante iceberg, porque, se o fores, nunca vais deixar que ninguém se aproxime de ti.

Ela ignora o que ele lhe acaba de dizer e pergunta:

— Porque é que ficaste?

Ele, confuso, responde:

— Porque é que fiquei? Já te disse. Senti que devia ficar.

— Sim, mas porque deste importância a essa sensação? Podias simplesmente ter ido embora, mesmo que o teu coração te pedisse que ficasses. Podias ter tido receio de que eu te culpasse. Era perfeitamente natural que o fizesse.

— Mas tu não o fizeste, pois não? Era perfeitamente natural que me tivesses culpado. Foi por te ter atropelado que estás numa cadeira de rodas. Porque é que não o fizeste?

O silêncio, mais uma vez. Já se tinham habituado àqueles momentos de silêncio. Eram dois estranhos sem perceberem muito bem porque estavam ali, os dois, a ter aquela conversa. Sentiam apenas que deviam ficar.

Continuaram a almoçar.

— É a minha preferida. – Diz Cláudia, depois de todos aqueles minutos em silêncio.

— Desculpa? – Responde Pedro, sem perceber de que falava ela.

— A pizza. A pizza vegetariana é a minha pizza preferida.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.