A perpetuação de um final feliz

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Fotografia © Chirobocea Nicu | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Chirobocea Nicu | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tinha corrido tanto quanto os seus pés puderam aguentar, para fora da quinta que tinha escolhido para o dia especial. A capela, que tanto amava e que lhe tinha sido dada a conhecer anos antes, pelo seu amado avô. Era ali que tinha escolhido casar, por ele.

— Malditos sapatos! — Disse em soluços.

O apanhado em trança do seu cabelo estava cheio de mechas soltas; o alfinete havia caído entre as folhas do bosque, as flores abandonadas e o vestido já não era totalmente branco.
Estava dentro do bosque que rodeava a quinta. Não sabia o quão dentro, mas o suficiente para que a luz do quase por do sol entrasse, em pequenos feixes de luz, por entre as folhas. Apoiou as mãos no que restava da ruína de uma pequena casa de pedra, e baixou a cabeça por entre os braços, como quem descansa o corpo após uma corrida veloz. Deixou a respiração ficar mais lenta e sentiu ar fresco a esfriar-lhe o corpo. Sentiu que estava a transpirar imenso e tinha a cara encharcada em restos de lágrimas, mas já não chorava.

Estava um fim de tarde de Outono tão perfeita, com uma luz tão dourada, que parecia que o universo estava a fazer troça dela. Inspirou fundo, sentiu o cheiro a terra húmida, a folhas secas e a — sim, as estações têm cheiro — outono.

Caramba, era um dos seus dias, a sua luz, os seus cheiros.

Levantou-se, olhou em volta e reconheceu aquele muro. Já tinha feito amor ali. Ele tinha-a sentado naquela mesma ruína muitos anos antes, quando ainda não sabiam sequer se eram namorados.

Sorriu, com o sabor doce da recordação. Limpou os olhos com as costas das mãos.

Tinha tantas memórias naquele sitio. Queria tanto que o avô estivesse ali. Tinha crescido entre aqueles bosques. Tinha conhecido todas as árvores com ambos os homens da sua vida, o que ia casar e o seu avô. Fazia tanta falta o seu abraço e a sua sabedoria nestas ocasiões.

Olhou em redor e, subitamente, foi como se ele tivesse estado sempre ali. Sentiu o calor do abraço dele, o cheiro da sua camisola de malha cor esmeralda. Foi como se uma onda de calor entrasse pelo corpo, como quando nos embrulham numa manta quente num dia muito frio.

Já não se sentia sozinha.

Sorriu novamente, fechou os olhos e absorveu a energia em seu redor.

— Olá, avô. Obrigada por isto. — Pensou para si. Acreditava genuinamente que a parte dele, que vivia em si, conseguia ouvi-la e que o universo tratava de lhe dar a resposta por ele.

Sentou-se no meio da erva alta, como tantas vezes fizera, embora nunca sozinha.

«E agora?» Pensou.

Esperava estar a sentir um furo no peito, uma dor horrível e incurável, o desgosto de amor… Afinal, tinha sido a pior coisa que já lhe tinham feito a nível romântico. Depois da raiva inicial e da vergonha, até lhe estava agradecida. Devia estar a odia-lo!

Em vez disso, sentiu alivio, vergonha de ser deixada assim em frente a toda a gente, sim, mas alívio. Tentou alinhar pensamentos. Sentia-se mais estranha por não estar a sentir nada do esperado do que pela situação.

Inspirou, novamente. Sentiu a brisa nos ombros, cruzou os braços em cima dos joelhos e pousou o queixo.

Quanto muito ele tinha sido mais corajoso que ela, pensou. Ela ia mesmo casar. Não ia ter coragem de ir embora. Havia tantas coisas difíceis de explicar. O drama romântico que ia ter de acontecer. Mas ele sabia — quando a olhava nos olhos, via — que ele pensava o mesmo. Ele sabia. Ele era mesmo o seu melhor amigo, e conheciam-se melhor que ninguém. Ela sabia.

Gostavam muito um do outro. Tinham planeado isto tantas vezes. Mas porque não gostavam um do outro mais que isso?

— Urrrg, tinha tudo para ser perfeito. — Disse.

Simplesmente, não era ele. Sentiu um peso a sair-lhe de cima por, finalmente, ter tido este pensamento tão claro, sem subterfúgios do «é uma fase», «andamos assim por causa do casamento», «temos muito trabalho». Simplesmente, não era ele.

«Ainda bem, ainda bem!» Pensou.

E, pela primeira vez em 12 anos, sentiu-se livre.

Não que ele fosse uma prisão. Pelo contrario, eram perfeitos um para o outro, e amigos até hoje. Quer dizer, iriam continuar a ser amigos? Como o ia cumprimentar na próxima vez que o visse? Ficou surpresa por saber, em si, que o queria como seu amigo. Pensou onde estaria ele, como teria fugido. Riu alto quando se lembrou de ele dizer sempre que se, um dia, tivesse de fugir para algum lado seria de trotinete, porque nunca ninguém foge de trotinete e aí ninguém vai à procura de um gajo de trotinete.

Chorou. Desta vez, baixinho.

Sentiu um abraço pelas costas. Assustada, olhou para trás e era ele. O seu noivo desaparecido. Olhou para ele, de fato e como estava bonito. Tinha os olhos inchados de choro, mas sorriu-lhe.

— Não fugiste de trotinete? — Sorriu-lhe de lágrimas nos olhos.

— Ponderei, mas não havia nenhuma à mão. — Abraçou-a. — Desculpa. Desculpa ter esperado tanto tempo para dizer algo.

— Desculpa-me a mim também.

— O que vamos fazer?

— Não faço ideia. Qual é o plano? — Sorriu.

— O meu é ter a melhor amiga do mundo na minha vida.

Foram de mão dada até à quinta.

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ANDREIA FERNANDES, a destemida
27 anos. Sensível, engraçada e sarcástica. Convicta, mas sem fanatismos. Ansiosa e com uma queda para o dramático. Amante de leitura, música, cinema, pessoas de bom coração e mesas bem servidas. Sonha percorrer o mundo, e saber um pouco de tudo, sem nunca ter certezas absolutas de nada. Acredita piamente que a busca pela individualidade é infinita, que o amor se faz chegar de todas as formas e que não há limites para se ser feliz.