A sereia

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Fotografia © Rowan Chestnut | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Rowan Chestnut | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Deixo o cais já de madrugada. Os primeiros raios de sol despontam a oeste.

No meu pequeno veleiro, navego à cautela, motor ligado, velas desfraldadas.

O mar está calmo, mar chão. Estranhamente. No horizonte desenham-se as nuvens. Cinzentas e enormes. Diagnostico: Cumulonimbus. Adivinha-se chuva forte e trovoada pela certa. E vagas como paredes de betão.

Passando a barra, rumo a oeste. Navego sem destino, em direcção à tempestade.

Como diz a canção, penso:

«Não sei onde isto me vai levar.»

Mas não me interessa. Preciso de encontrá-la.

Há muito que não me sai dos sonhos. Todos os dias, igual. Uns olhos verdes, cor de esmeralda, observam-me. O cabelo acobreado, comprido e ondulado, formando canudos. Está sentada em cima de algo que não consigo distinguir. No entanto, o local é-me familiar.

Estou obcecado por aquela imagem. E por aquela beleza.

De volta à realidade concentro-me no rumo e nos instrumentos. Os avisos à navegação ecoam constantemente no rádio. E o radar não engana… é a maior tempestade que alguma vez vi.

Mas insisto:

— Tenho de a encontrar!

Sinto que a minha resposta é aquela pequena ilha, bem para lá da tempestade.

O vento sopra forte. As vagas sucedem-se cada vez maiores e menos espaçadas.

Começa a chover torrencialmente.

«Não interessa. Não desistas» – oiço uma voz interior que me desperta.

Tenho de me precaver pelo menos: arrio as velas, iço o estai de tempo e visto o colete salva-vidas.

Agarro o leme, com força. Torna-se muito difícil manter o rumo. O barco baloiça incessantemente, a qualquer altura parece querer virar-se.

«É uma loucura. Não vou conseguir!»

De repente, como se pressentisse algo, viro-me para trás. Um sentimento entre o pânico, a surpresa e a felicidade assalta-me.

Ali está ela, bem atrás de mim, deitada sobre a plataforma, à ré, numa pose sensual. Sorri para mim. Fico embevecido pela sua beleza.

E rejubilo! Encontrei-a. É minha finalmente!

Largo-o leme, dirijo-me a ela, quero beijá-la. Vejo os seus lábios formarem um ó, doce e voluptuoso.

Pelo canto do olho vejo uma vaga imensa em direcção ao barco… não há mais tempo!

Tento abraçá-la, beijar-lhe os lábios carnudos e, pressentindo o que se aproxima, vejo a minha vida num flash.

A onda atinge o barco. É… o fim.

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CARLOS DINIZ, o idealista
É informático, mas as letras também o assistem. Adora ler. Lá porque esta é a sua primeira experiência na escrita, não se deixa intimidar. Os desafios são para isso mesmo. Amante do que é natural, aprecia as coisas boas da vida. Acredita que «os sonhos comandam a vida» — e, aqui entre nós, comandam mesmo.