Olho Morto: O cais IV

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
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Partes de si se prolongavam no longo tempo. O seu rosto apático encontrava-se pálido e seco. As gretas cobriam os seus lábios ensanguentados e carnudos. O seu corpo estava indiferente ao vazio do seu quarto e assim ficou, encarando a parede por inúmeras horas, sem tocar numa migalha. A energúmena – a possuída – estava lá. O demónio permanecia entranhado na sua pele, na sua carne, e os seus pensamentos eram sombrios e irrequietos – sedentos de sangue e ainda com fome.

Ela necessitava de carne.

Os seus olhos despertaram em desespero e, em três passos, a sua janela abrira sem sequer lhe tocar. Lançara-se pela janela e assentara os pés na lama.

Que assustadora que estava…

Colocara o seu capuz negro na cabeça e movera-se até onde a fome a iria levar. O fedor a carne e sangue entranhava-se-lhe no nariz e, rapidamente, os seus olhos encontraram a sua segunda vítima.

As suas mãos tocavam nas plantas que morriam com o seu toque, direcionando-se para o seu alimento, que estava encostado ao poste que iluminava a rua escura num tom intermitente.

Lambera os beiços e levou as suas mãos até aos ombros do futuro defunto, até que a sua vítima a olhara nos olhos.

— Mana… – Respondera a criança assustada, o seu irmão mais novo. — Mana? – As suas lágrimas vieram aos olhos da pequena pessoa, assustada com a nova expressão da sua irmã, a possuída.

No seu coração, sentiu tal impulso, que as suas emoções tentavam sair-lhe do corpo. Marta queria ser liberta do mal que a consumira. Porém, o demónio era mais forte do que ela.

E abrira o maxilar da pobre criança. O seu irmão de oito anos, que tantas vezes lhe chorava ao colo, pedindo carícias.

Ouvira-se os gritos da criança, que sentira o deslocamento do seu maxilar, e numa fracção de segundos ficara inconsciente. A sua boca, repleta de tentação e de fome, dirigira-se à boca do seu irmão, e com os seus dentes sujos de sangue arrancara-lhe a língua, mastigando-a. O sangue escorria-lhe pela boca, que tanto lhe fizera deliciar-se.

Um grito abafado soou na sua frente: uma nova criança estava diante de si. Uma menina amiga do seu irmão, que imediatamente largara a bola de borracha. Marta olhou em frente sem hesitar e moveu-se até ela.

Mafalda, a menina, tapara o seu rosto com as suas pequenas mãos e a energúmena não se importou.

Penetrara-lhe os dedos num dos seus olhos e lambera-os de seguida. O corpo caíra no chão e dois corpos inanimados se juntaram. A energúmena sorrira, numa expressão maléfica, e lambera por fim o resto da sua mão, por onde o sangue de Mafalda continuara a escorrer.

Olhara para os céus e encarara o horizonte. Era mesmo isso que o seu corpo lhe pedia para seguir. E seguira até ao cais.

Caminhara pelo cais, onde, convencida, tentara encontrar o local em que outrora tivera assistido à morte de Pedro. A energúmena estava saciada. A carne fresca que lhe fora concebida através de um defunto de criança, que mastigara com prazer e satisfação.

Ao fundo do horizonte, avistara três presenças que caminhavam sobre a água na imensa escuridão, que nem a lua era capaz de iluminar. Apenas Marta, que, presa entre o seu corpo e o demónio, tentara combater a sua vulnerabilidade acrescentada pela possessão demoníaca. No entanto, agora sabia quem estava em posse do seu corpo, que tanto queria cair no chão como uma gota de água e descansar o seu espírito, que desejava a liberdade dos céus e a junção de afeto para com Pedro.

As três presenças caminharam até si. Filipe, Mónica e Valter estavam subitamente diante de si, tocando-lhe na nuca. Pedro faltara… Com isso, o seu espírito estava impossibilitado da liberdade.

O demónio soltou um grunhido através das cordas vocais de Marta, que pensara ser este o seu final feliz.

— Sou o demónio. – Respingou entre o grunhido furioso e violento.

Todas as almas penadas estremeceram e entreolharam-se.

— Nós somos as almas perdoadas. O perdão, agora, faz parte de nós, enquanto tu, criatura do submundo, serás queimada entre as chamas do Inferno de onde saíste! – Soprou o vento, trazendo Pedro entre as brumas do mar.

O demónio soltou uma gargalhada.

— A Marta pertence-nos. – Disse Mónica, onde levara a palma da sua mão na cabeça da energúmena, paralisando o defunto ambulante que cerrava as paredes da liberdade.

Valter elevou a sua palma, atribuindo a confissão ao corpo morto. Filipe imitara os restantes, roubando as asas do anjo infernal, que rapidamente iria cair entre os portões do submundo.

— Daqui não fugirás. – Disse Pedro, agarrando a cabeça da energúmena, rodando-lhe o pescoço. Ouvira-se o partir do osso como se fosse o estalar dos dedos. Pedro olhara todas as almas presentes e sorrira num tom maléfico.

— O que fizeste? – Perguntou um dos perdoados violentamente.

— Com o mesmo toque seremos entregues ao submundo… – Disse, rindo-se. – E a minha vingança aqui termina com o toque do demónio.

A outra metade de Pedro – a não perdoada – penetrara-se-lhe na sua alma, enquanto todos os outros caíam nas portas do Inferno.

A sua morte fora vingada e o seu plano fora sucedido. No entanto, a parte infernal de Pedro continuara pelo cais, amaldiçoando os pescadores, aterrorizando os românticos que avistavam o pôr do sol, as crianças que brincavam pelo cais…

Aquele cais nunca será o mesmo.

Fim.

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.