O meu Natal

1977
Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Há pessoas que não gostam do Natal. Não gostam pelo consumismo associado à época. Eu percebo o descontentamento e também não concordo com esses excessos. Mas, para mim, o Natal não tem nada a ver com consumismo. Para mim, sempre foi uma data cheia de alegria.

O dia em que fazíamos a árvore de natal e o presépio era uma festa. Porque eu, a minha mãe e as minhas irmãs passávamos a tarde no campo. Em busca do pinheiro mais alto, do musgo mais verde e de azevinho e verduras para fazer centros de mesa. Até o barro trazíamos, para fazer as bases dos centros. Uma vez, insisti tanto para a minha mãe trazer um pinheiro gigante que depois não coube na sala, de tão alto que era. Descobrir materiais, para fazer uma cabana perfeita para o menino Jesus, também era um verdadeiro desafio. Colocávamos velas ou luzes. E, todos os anos, tentávamos aperfeiçoar o nosso presépio. E, depois, durante o mês de dezembro, fazia questão de ir aproximando os reis magos até à cabana. Os centros de mesa eram espetaculares. Dávamos sempre um acabamento com spray dourado ou prateado. Lembro-me também de passar as tardes, das férias de Natal, a fazer postais com as minhas irmãs, para oferecermos a toda a família. Eram postais 3D, feitos com algodão a imitar a neve ou as barbas do pai Natal. E tínhamos tanto orgulho do resultado. Depois, escrevíamos mensagens cheias de carinho, para oferecer na noite de Natal.

Confesso que o Natal nunca teve uma conotação religiosa para mim. Mas eram todos aqueles rituais de decoração e preparação, que fazíamos em família, que dava significado à época natalícia.

O Natal era saber que, pelo menos nesta época, a família estava toda reunida. Era saber que íamos à feira para comprar, pelo menos, a única roupa nova do ano. Era saber que íamos rir, mais uma vez, com o filme «Sozinho em Casa». Não interessava quantas vezes já o tivéssemos visto. Era saber que havia sempre muita comida e muitos doces, que durante o ano também não abundavam. Era saber que, pelo menos, ia dormir com umas meias novas quentinhas, que até podia ser o único presente que recebia, mas que me dava uma sensação de conforto.

Hoje, o Natal é mais triste. Já não estamos todos. Cada um seguiu o seu rumo. Alguns partiram para sempre. Outros emigraram. Outros, ainda, divorciaram-se. Há ainda as normais divergências das famílias. Mas também há novos elementos na família, que alegram esta data. Que fazem com que valha a pena continuar a tradição.

O estar longe de casa já não me permite fazer parte dos rituais de decoração. Mas continuo a ansiar por esta época. Porque até posso estar todo o ano fora, mas nessa data volto sempre a casa. Apesar de tudo, sei que nessa altura posso reencontrar a minha família. Que posso voltar a passar a tarde a jogar às cartas com a minha avó, embora saiba que vou perder. Que vou comer a comida maravilhosa da minha mãe. Que volto a sentir o cheiro ao café d’avó e das filhoses acabadas de fritar. Que volto a estar à lareira, a ver filmes com a minha família.

Feliz porque posso adormecer na minha cama. Feliz porque tenho saúde. Feliz porque tenho comida na mesa. Mas, principalmente, feliz porque tenho a melhor família do mundo.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.