Vamos lutar em silêncio

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Fotografia © Chirobocea Nicu | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Chirobocea Nicu | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

As palavras. As nossas palavras são, tantas vezes, como as bombas. Quando, na ânsia de não escutarmos o nosso coração, as atiramos para o outro. Como se o nosso coração fosse uma espingarda. São bombas que explodem sobre os nossos corpos. Balas que trazem com elas a raiva, e nós, simples mortais, queremos com elas matar o outro. O outro que sente um amor igual ao nosso. As palavras, que já foram o ninho da nossa paixão, são, agora, o campo de batalha para as nossas brigas. E serão talvez, amanhã, o porto de abrigo para os nossos arrependimentos.

São tão poderosas estas palavras que vivem entre nós. Foram elas que te trouxeram para a minha vida. Semearam em nós horas de felicidade. Serão também elas que irão, um dia, contar os momentos de uma paixão vivida. Agora, são as bombas que me atiras para as mãos. Tiros que tu disparas, diretamente, para o meu coração. E que ferem o pouco que ainda resta de nós.

Deitas estilhaços de raiva e ódio nas linhas da minha história. Ninguém te segura, quando decides disparar sobre mim. Ninguém cala a voz do teu coração. Ninguém apaga as palavras que escreves no livro dos meus desgostos.

O amor não deveria ser assim. Se já fomos felizes, não deveríamos tornar-nos inimigos. Se, um dia, dividi contigo a felicidade, não posso ser tua parceira nesta guerra.

Vou fazer uma barreira com as minhas palavras. Tentar que elas não conheçam o sabor da desilusão, nem sintam o cheiro da tua provocação. Vou fazer uma barreira, para que os teus tiros não me atinjam. Vou guardar as minhas palavras, carinhosas e valiosas, para te adoçar essa alma amargurada. Vou espalhar o mel da minha escrita no teu coração.

Não, não vou deixar que me mates. Não te vou virar as costas. Vou, antes, enfrentar o meu, o teu, o nosso amor. Tens que perceber que eu não me dou facilmente por vencida. As nossas batalhas não continuarão a ser com palavras que disparas contra mim. Essas não poderão ser a munições que usas, para te defenderes de um ataque de paixão, que todos os dias enfrentas.

Sabes onde vamos travar a nossa próxima batalha?

Será numa qualquer cama, num recanto escondido entre quatro paredes. Num sítio onde a minha paixão te ataque e tu não te possas defender. Tenho a batalha toda ensaiada. Disparo-te um beijo nesse sorriso, que tu pintas de negro. Dou-te um abraço apertado. Procuro pelos teus pontos fracos e ataco-te com a bomba do desejo. Acabaremos a nossa guerra rendidos pelo prazer, com que lutaremos nessa batalha.

Tu passarás a ser um ser inofensivo, que se deixou morrer nos braços do amor. Eu serei a rainha coroada pelo teu coração. Viveremos felizes, enquanto o nosso amor respirar. Só tens que me prometer que vais entrar nesta batalha, sem que tragas as palavras. Deixa-as descansar um pouco. Vamos lutar em silêncio. Escutando apenas a voz dos nossos corpos. Eles, depois, ditarão ao coração as palavras que irão contar tudo o que vivemos.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.