Tinha tudo, mas faltava-lhe tudo – 2ª parte

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Fotografia © Scott Webb | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Scott Webb | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

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Esteve mais uma semana naquele hospital, em constante observação, completamente anestesiada pelos comprimidos que lhe deram para as dores. Apesar de ter ficado paraplégica e não sentir as pernas, tinha tido também algumas fraturas na parte superior do corpo.

Quando os médicos perceberam que já tinham feito tudo o que podiam, deram-lhe alta. Vestiram-na, ajudaram-na a sair da cama e sentaram-na na cadeira de rodas. Ao que ela tinha chegado. Ela, que era completamente dona de si, precisava, agora, que alguém a vestisse e pegasse ao colo, porque as suas pernas não se mexiam. Foi nesse momento que o seu coração se encheu de raiva, de frustração, de tristeza, de todos os sentimentos negativos que pudessem existir. Era o fim da vida dela! Era só isso que lhe ecoava na mente.

Ao sair da enfermaria, disseram-lhe que o condutor do carro que a atropelou estava na sala de espera. Tinha ido lá todos os dias, apesar de ela não querer ver ninguém. Ofereceu-se para a levar a casa e, como não lhe restavam mais opções, aceitou.

Ela não o culpava porque, apesar de viver apenas para o trabalho, era uma pessoa sensata com os outros e sabia perfeitamente o estado em que estava, quando se atravessou naquela estrada.

Assim que ele a viu, levantou-se e correu ao seu encontro.

— Não sei muito bem o que lhe dizer. Acho que me vou culpar, eternamente, pelo que aconteceu naquela noite.

Ela, completamente impávida e morta por dentro, disse-lhe:

— Antes tivesse sido uma pancada maior e eu tivesse morrido. Entre estar assim e morrer definitivamente, eu prefiro morrer.

O condutor, visivelmente emocionado e com o coração repleto de culpa, não conseguiu pronunciar uma qualquer palavra. Levou-a até ao carro, colocou-a no banco da frente e arrumou a cadeira de rodas na mala. E ela cada vez mais frustrada. O sentimento de inutilidade a invadir-lhe o corpo.

O caminho até casa foi de um silêncio incrível, constrangedor até. Chegaram, finalmente, a casa dela. Ele ficou vislumbrado com aquela casa. Ou será que devia dizer palácio? Levou-a até à porta e, assim que entraram dentro de casa, ela disse-lhe que já se podia ir embora.

— Mas não precisa de ajuda? Já almoçou? Eu posso ir comprar alguma coisa para almoçar e, depois, colocá-la na cama a repousar.

— Não quero. Já disse! Vá-se embora. – Diz enervada.

— Mas, então, tem alguém que a possa ajudar? Não a posso deixar aqui sozinha, sem saber que fica bem. Já chega ter sido o culpado desta situação toda.

— Será que ainda não percebeu que não tem culpa? Será que ainda não percebeu que a culpada fui eu? Fui eu que vivi todos estes anos para o trabalho. Fui eu que, naquela noite, fiquei até de madrugada no escritório. Fui eu que atravessei aquela estrada sem sequer olhar para o lado de tanto cansaço que tinha no corpo. Fui eu que nem sequer ouvi o ruído do carro a aproximar-se. A culpa é só minha, por me ter deixado cegar por esta ambição desmedida de ser melhor do que os outros, de ter mais do que os outros. E, agora, o que me resta? Tenho dinheiro, tenho um bom carro, uma boa casa e estou sozinha, sem sequer poder ser autónoma e precisar dos outros para cuidar de mim. Tudo porque não parei quando o meu corpo me pediu. Tudo porque achava que era forte e aguentava tudo. Tudo porque, quando me deitava para dormir, achava que estava a perder dinheiro. Acha mesmo que a culpa é sua? Não é.

Ele, completamente incapaz de reagir, diz-lhe:

— Bem, eu vou comprar o nosso almoço. Acho que teremos muito que conversar. Gosta de pizza, não gosta?

— Não tenho fome.

O condutor ignora o que ela lhe diz, agarra a chave do carro e abre a porta da rua.

— Até já.

Ela não lhe responde. Depois de uns minutos a olhar fixamente o vazio, põe-se a vaguear pela casa. Nunca se tinha apercebido do quão grande era aquele espaço. É claro que ela só se podia sentir sozinha num espaço onde cabia uma família inteira. Voltou a chorar. Não se lembrava de alguma vez ter chorado tanto, porque nunca quis sentir o que fosse e o trabalho era um ótimo escape para o coração. Enquanto trabalhava não sentia e era só disso que ela precisava. E, agora, tinha todo o tempo do mundo para sentir, para pensar no que se tinha tornado. Não era nada. Não era rigorosamente nada. Era um corpo vazio, um coração vazio. E sem o trabalho já não tinha objetivos nenhuns, já não tinha rumo. E que rumo podia ter alguém que está numa cadeira de rodas? – pensava.

Poucos minutos depois e, enquanto vagueava nos seus pensamentos, ele chega.

— Comprei pizzas vegetarianas. Espero que goste.

— Já lhe disse que não tenho fome.

— Melhor. Mais sobra para mim. – Diz, tentando arrancar-lhe um sorriso, mas em vão.

Ainda estava anestesiada pela frustração, por ter de depender de alguém naquele momento para poder fazer uma refeição. Que repugnante era aquele momento.

— Bem, é parvo estarmos aqui os dois e ainda não sabermos o nome um do outro. Sou o Pedro. – Diz, tentando alimentar uma conversa.

Depois de um silêncio enorme, ela responde:

— Cláudia. Eu era a Cláudia.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.