Sinto que sou duas

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Fotografia © Milada Vigerova | Cartaz & Edição © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Milada Vigerova | Cartaz & Edição © Laura Almeida Azevedo

Um dos maiores dilemas, com que se debate um tímido, é de que há, demasiadas vezes, uma grande distância entre o que se quer, visceralmente, fazer e o que se acaba por, realmente, fazer. E essa distância tem o tamanho da frustração que depois carregamos.

Não se trata da questão de poder ou não poder, até porque esta é universal e não escolhe feitios, mas trata-se, isso sim, de atravessar a barreira que temos entre nós e o mundo e que é tão difícil de deitar abaixo.

Esta barreira limita-nos o passo e torna tudo três vezes mais difícil do que já é. Para nos atrevermos a saltar uma poça despoletamos os mesmos nervos que seriam ligados para encarar um salto de uma prancha de dez metros de altura para uma piscina. É um desgaste inútil e um desperdício de energia, mas infelizmente é assim.

Não sei se o overthinking está intrinsecamente ligado à timidez, mas não me surpreenderia se estivesse. Analisamos demasiado. Arranjamos todas as desculpas, mesmos as mais improváveis, para não corrermos o risco de nos expormos.

E, quando arranjamos, finalmente, a coragem para saltar a poça, sentimo-nos uns heróis e que somos capazes de tudo, mas depois aparece outra poça e o processo recomeça. Esta luta interior é tão cansativa que rouba-nos a vontade e acabamos por nos acomodar, porque é extenuante viver neste constante processo quando tudo o que mais queríamos era, apenas, poder ser mais espontâneos.

O pior mesmo é quando levas tanto tempo para reunir as forças para saltar a poça que, quando tal acontece, ou a poça já se transformou num lago ou, ainda mais ridículo, já secou. Que é como quem diz: o comboio já passou e a oportunidade foi com ele.

Queria não me sentir, tantas vezes, um peixe fora de água. Não me importar constantemente com que os outros pensam ou com a exposição de mim aos outros. Queria tanto que o meu eu interior pudesse saltar mais vezes cá para fora e comandar a minha vida, em vez de ser renegado para as profundezas do meu ser.

Sinto que sou duas — aquela limitada pelos seus demasiados pensamentos e aquela que sou naquilo que de mais genuíno tenho. É por isso que, tantas vezes, quando as pessoas, efetivamente, acabam por conhecer-me não me reconhecem. Porque, até então, quem achavam conhecer não era mais do que o invólucro construído em meu redor e que não é mais do que a capa protetora que tenho contra o mundo.

Como se não bastasse o medo, a timidez também é um colete-de-forças que nos restringe os movimentos. É verdade que não queria passar do oito ao oitenta, mas também não queria sentir-me tão aprisionada por mim própria, nem queria viver nesta permanente batalha interna.

O dilema de um tímido é querer meter conversa com um grupo de pessoas que acha interessante, mas ter receio de se estar a impor. É querer juntar-se ao pessoal que dança numa festa, mas ter receio do ridículo.

O dilema de um tímido é querer ser capaz de dizer a alguém, olhos nos olhos, que o quer muito, em vez de engolir as palavras e olhar para o chão.

E assim aprendemos que a distância, entre o que se quer fazer e o que se acaba por fazer, é a frustração.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.