Porque a luz própria te faz ser livre!

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Fotografia © Adrianna Calvo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Adrianna Calvo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Abri a janela logo pela manhã, como faço sempre. Saí daquela cama quente e que emana uma ternura tão especial e única, que só quem divide ou já dividiu a cama com um anjo sabe do que falo. Esse anjo de cara miudinha, de pele branca e de traços tao perfeitos, que me fazem sorrir e pensar quão abençoada sou por ter sido bafejada pela maior sorte deste mundo. Ser mãe! Este anjo que me faz acordar com outro ânimo, quando o frio que se faz sentir lá fora. Simplesmente, nos faz querer ficar ali a olhar para o nada e para tudo o que virá naquele dia cheio de rotinas, horários e falta de tempo para as mil uma coisa que já temos agendadas!

E, por falar em agenda, estamos naquela época especial, de brilho, de luzes, de enfeites, fitas sorrisos, presentes, renovação de votos, partilha de bons sentimentos, de lembranças e saudades de quem já esteve, de quem já não está, e de quem está em nós, mas não connosco.

Chegou o Natal, esta época tão especial em que todos se dão bem e que é tudo tão bonito e perfeito! Pois é, infelizmente, não é Natal todos os dias do ano e todas estas partilhas que se fazem por aí, muitas delas, tão verdadeiras e cheias de emoção e ainda bem que assim é, e é por elas que vale a pena toda esta renovação de votos, de dedicação ao outro, de solidariedade. Mas tu sabes, tão bem quanto eu, quantas há só para iludir, só para fingir que sim? Quantas pessoas dizem somente aquilo que os outros querem ouvir, porque calha tão bem nesta altura? E porquê? Porque é Natal! Porque, nesta época do ano, tudo parece mais real e mais verdadeiro!

Não soará o falso, percebes?

Porque estamos amarrados a um colete de forças que nos permite e/ou nos obriga a não nos mexermos do sítio onde estamos, cujos elásticos pouco claros querem que fiquemos presos a si — não nos querem fora desta zona de conforto. Porque o colete de forças tem um nome muito peculiar. Eu atrevi-me a chamar-lhe Hipocrisia. Também poderia ser Falsidade, mas não. Considero Hipocrisia o nome adequado. Se te estou a chamar hipócrita? Não, claro que não!

Tu és diferente! Não vestes esse colete de que te falo. És frontalidade. És sinceridade. És amizade e, acima de tudo, és livre! Sabes o quanto vale seres livre! És livre porque não finges. És livre porque privas com aqueles que escolhes. És livre porque, se não gostas, não te derretes dentro do colete Hipocrisia! És livre porque és, simplesmente, tu próprio! Esta liberdade atrai a luz própria, e essa luz nem toda a gente a descobriu ainda. Nem toda a gente sabe que a tem!

Se fores tu mesmo, se vier de dentro o que dás aos outros, se vier do fundo da tua alma (aquele recanto abrigado que, às vezes, parece adormecido, mas que está lá, e é tão teu que só os mais especiais o conseguem tocar e aqueles que são os especiais conseguem habitar e permanecer lá na vossa eternidade), se vier desse teu recanto, tudo será o que verdadeiramente é! Chegarás aos outros, tocarás a vida de quem tem o privilégio de privar contigo e, acima de tudo, tocarás a alma do outro sendo somente outra alma humana!

Serás apontado sempre que confrontares algum morador deste colete que te falo. Serás apontado como o sonhador, o verdadeiro utópico do seculo XXI, se não o fizeres e sabes tão bem disso como eu! Serás excluído deste carrocel de manifestações de afetos obrigados, de sorrisos forçados e do jogo de interesses aos quais toda esta montanha russa, chamada Sociedade, está subjugada! Mas serás uma pessoa que marcará pela diferença, que é recordada de forma diferente. Serás uma pessoa que os outros querem por perto, porque és energia positiva, porque és boa onda, porque és pura e simplesmente tu. Tão somente isso!

Como te dizia a Cinderella há uns textos atrás: apesar destas cores cinzas e desta inversão de valores cada vez mais patente, existem pessoas que nos marcam tanto, que passam pela nossa vida e que enriquecem a nossa alma com um simples toque, com uma suavidade que nos faz pensar que vale a pena fazer parte desta massa global, corroída, mas tão bem frequentada! Consegues sentir a antítese disto?

Não te sintas parte desta massa global só porque os outros querem ou fazem parte de uma forma obrigatória, interesseira e, pura e simplesmente, «do gosto tanto de si”, «admiro-te muito», quando só se toleram!

Sê tu mesmo. Não te deixes viver no colete de forças desta montanha russa de emoções antagónicas, neste formato de padrões. Não te deixes moldar só porque é Natal, só porque é a época da manifestação de afetos e renovação de votos!

Faz isso o ano todo. Enche a tua vida de sentido. Faz a vida valer a pena. Divide a tua vida com os outros. Preenche-te e, acima de tudo, brilha só porque queres ser mais feliz! E esse teu brilho fará toda a diferença! Porque a luz própria te faz ser livre!

Vá lá, brilha e liberta-te das amarras da vida dos formatos antagónicos!

Gosto-te tanto assim, iluminando a vida de quem passa por ti!

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!