A oportunidade de ser «eu»

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Fotografia © Yoann Boyer | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Yoann Boyer | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

É no dia 31 de dezembro — aliás, na passagem do dia 31 de Dezembro para o dia 01 de Janeiro — que recomeçamos do zero em nova contagem de mais 12 meses.

E é no início do mês de dezembro que tomamos consciência da contagem decrescente e da necessidade de fazer uma reflexão sobre os 365 dias que foram vividos, ou melhor, a tentar sobreviver.

Ora, estamos em 2016 — um ano que de forma abrangente vejo como «O ano em que eu me vi!» forçosamente. No entanto, até agradeço porque há muito que eu precisava de mim. De me ver, de me perceber, de me alimentar de tudo o que me faz falta e tenho necessidade, de me deixar amadurecer, de me fazer bem, de apostar em mim, de me sentir, como só eu saberei sentir, quando me olho ao espelho, ou me perco numa folha de papel.

Este ano, quero agradecer a quem me ensinou o que fui aprendendo. Quero agradecer a quem me deixou ficar. Quero agradecer a quem me aceitou como sou. Quero agradecer a quem me deixou ser «eu». Quero agradecer a quem não pediu nada em troca. Quero agradecer-me por tudo o que enfrentei, batalhei, superei, conquistei e ensinei. Qualquer vitória, seja ela de que tamanho for, foi por mim reconhecida e valorizada.

Aos que foram, agradeço terem passado e provavelmente por terem deixado algo. Aos que ficaram, que a vida, a amizade, o carinho, a fidelidade, a sinceridade, vos impeça de ir.

A impressão que tenho deste ano é que fui vendo pessoas a partir. O que me marcou este ano foram pessoas, que até então achava intocáveis, perderam a vida por diversos motivos. Pessoas que marcaram a história da gente, do país, de cada um de nós individualmente e num todo.

Já dizia a minha mãe: «Até os melhores têm um coração que bate, e que para.». E há bem pouco tempo também me disse de rompante, olhos nos olhos: «Tu estás tão crescida, que eu tenho a sensação de que perdi bocados do teu amadurecimento.»

Se eu pudesse desejar? Desejava não ter de desejar nada, poder querer e ter aquilo que se deveria ter para viver de forma humilde e honrada. Sem ter de depender de nada, nem de ninguém, muito menos humilhar sobre algo ou alguém que nos leve a fazê-lo.

O que gostava de ter feito e não fiz? Dar a volta ao mundo. Perceber o ser humano. Perdoar quem merece perdão. Ignorar quem merece ser ignorado. Não esperar pelos pedidos de desculpa que me devem. Pedir desculpa a quem devia pedir. Amar menos o outro e mais a mim mesma. Permitir que me amem como me permito amar. Aprender a tocar um instrumento musical. Tatuar o que já me deixou marca. Encontrar o que perdi.

Este ano, eu cresci, por dentro.

Sou mais eu.

Sou a minha própria voz.

Sou a mulher que tem vindo a deixar de querer ser menina.

Sou alma, coração na boca, sobrevivente que não abdica da vida por nada.

Este ano, fui eu!

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ANDREIA DE CASTRO, a princesa
Se fosse o seu pai, dir-nos-ia: «A Andreia é uma princesa... Só ainda não sabe que o é.» E, para ele, isto definiria tudo. Porque a Andreia é amor. Amor pelos outros, mas não tanto por ela própria. Porque a Andreia é família: vive para e por eles. Porque a Andreia é o sorriso, a lágrima, o vento, o sol, o silêncio, o mar e o céu sem limite. E, além de tudo disto, a Andreia é ainda solitária, viajada, artista, insegura, auto crítica, beijoqueira. É a princesa que o pai sempre quis ter. E que, até ao parto, esperavam que fosse um menino... Mas a Andreia, porque também é sentido de humor, enganou tudo e todos. E não se limitou a nascer menina. Nasceu princesa.