Tinha tudo, mas faltava-lhe tudo – 1ª parte

3098
Fotografia © Alexander Ronsdorf | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alexander Ronsdorf | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Eram quase onze da noite e ela ainda estava no escritório. A secretária repleta de processos, o balde do lixo entupido de copos de café e, lá fora, a chuva batia com força na janela. Era mais uma noitada de trabalho. Aliás, ela já nem sabia o que era um horário de trabalho normal, porque toda ela era trabalho. Era feliz assim. Ou, pelo menos, era isso que repetia a si mesma, todos os dias. E, quando se repete, constantemente, uma ideia, o nosso cérebro convence-se de que realmente é assim.

Tinha o olhar cansado e, na sua pele, faziam-se notar rugas que não correspondiam aos seus trinta anos. Mas vestia uma saia comprada numa loja caríssima em Itália, os sapatos da sola vermelha que lhe custaram mais de quatrocentos euros e uma camisa branca que deve ter comprado numa das tantas viagens que fez. Lá fora, esperava-a o seu Mercedes branco, o que sempre quis ter. Tinha dinheiro, tinha muito dinheiro, mas nunca parou, um segundo que fosse, para compreender que aquele dinheiro nunca poderia comprar a felicidade que não tinha.

Passava da meia noite, quando abandonou o escritório. Sentiu o frio cortar-lhe a respiração, enquanto se dirigia ao carro estacionado do outro lado da estrada. Tinha os olhos vermelhos, como se tivesse fumado uns quantos charros, e sono era tudo o que conseguia sentir, resultado das poucas horas que tinha dormido na noite anterior.

Estava a andar em modo tão automático, que nem para o lado olhou ao atravessar a estrada. E este modo automático só foi interrompido quando sentiu uma pancada brutal. Rebolou uns quantos metros ao longo da estrada, impulsionada pela pancada que tinha sofrido, e sentia uma dor tão grande que era como se lhe estivessem a quebrar todos os ossos, um por um. Sentiu o sangue escorrer-lhe pelo rosto e apagou.

Acordou no dia seguinte, no hospital.

Assim que abriu os olhos, olhou o espaço em redor. Percebeu que estava no hospital, mas não sabia ao certo o que tinha acontecido. Tentou levantar-se, mas ao fazê-lo percebeu que não tinha força nas pernas. O médico entra na enfermaria e ela não demora a perguntar:

— O que aconteceu ontem? Porque é que eu não consigo mexer as pernas? – Pergunta visivelmente assustada.

— Bem… – Engole em seco à procura da forma mais correta de lhe explicar – A menina foi atropelada ontem de madrugada e sofreu uma lesão na medula espinhal que se traduziu numa paraplegia.

As lágrimas caem-lhe pelo rosto, cada vez mais intensas.

— Não pode ser. Diga-me que isto é uma piada ou um sonho ou qualquer coisa, mas diga-me que não é verdade. – Olha o médico com as lágrimas a inundar-lhe o rosto e com esperança de que aquilo fosse, realmente, um pesadelo.

— Tenho pena de não ser portador de boas notícias, mas a pancada foi muito forte. O condutor disse que a menina lhe apareceu à frente do carro do nada e não conseguiu parar o carro a tempo. Disse também que está disposto a ajudá-la naquilo que for necessário.

— Cale-se! Deixe-me sozinha. – Diz com a voz sufocada pelas lágrimas.

— Sim, irei deixá-la descansar. Mas, antes, quero perguntar-lhe se quer que avise algum familiar do que aconteceu. Tentamos encontrar o contacto de alguém próximo nos seus pertences, mas não encontramos nada.

— Não, não quero. – Diz com a voz trémula.

O médico abandonou a enfermaria e ela chorou com mais força ainda. Não se lembrava de alguma vez chorado assim. É claro que não podiam avisar ninguém. Ela não tinha ninguém. Os pais já tinham falecido, o irmão deixou de lhe falar e os amigos, bem, os amigos não os tinha. Foram anos de uma vida dedicada apenas ao trabalho, onde apenas couberam relacionamentos de uma noite, porque não tinha tempo para mais. Estava sozinha. Percebeu, naquela cama, sem sentir as próprias pernas, que estava sozinha e completamente perdida. Como é que poderia trabalhar se ela nem sequer conseguia andar? Para ela, a vida tinha acabado ali.

Mas talvez não. Talvez aquele fim tenha sido só o princípio.

Lê próximo capítulo aqui.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorQue importa ser alguém?
Próximo artigoA oportunidade de ser «eu»
RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.