Vou trabalhar. Xau

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Fotografia © Alisa Anton | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alisa Anton | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Abro um olho. Estou quente. O meu corpo está numa relação profunda com a cama – olho pela janela ao meu lado direito. Não há dia. A luz já se foi. Desligo o despertador, enfurecido, e lanço dois suspiros. No meu telemóvel, vejo as horas. Está na hora. Mais um dia entregue à rotina. Estas noites dão cabo de mim – excluem-me da vida social. Levanto-me, visto-me e despeço-me de ti. Para manter o equilíbrio, digo-te um «xau», e sigo para a estação de comboios, tal e qual como ontem e antes de ontem o fiz. Coloco os meus phones nas orelhas e já me encontro reservado ao meu próprio mundo – aos meus pensamentos, à minha imaginação.

Passo a passo, começo a sentir a rotina a tomar posse de mim. Tristeza, fúria, raiva… Não dá!

Sento-me no banco de metal da estação e olho o nada. Só cá estou eu e, vá, a estas horas, mais uma ou duas pessoas. A noite já caiu e já quase todos estão com as suas famílias. Eu não. Estou aqui ao frio, a caminho de mais uma noite de trabalho. A mais um aborrecimento diário preso a todos os caminhantes desta sociedade.

O comboio chega e encontro um sítio para me sentar. Tantos lugares vazios… Vai ser mesmo neste… Ou naquele? Que indecisão!

Sentei-me.

Mais adiante, pessoas começam a preencher os lugares vazios e deparo-me nos seus olhares. Deparo-me nas suas formas de estar. Estarão a pensar como eu? Estarão cansados da rotina?

Dois bancos à frente está uma rapariga não muito mais velha do que eu. Loira, olhos claros e pele pálida. Olha fixamente pela janela, mas não vê nada. A luz do comboio ofusca a visão de lá de fora. Só se vê o negro, mas ela insiste. Ela encara o negro. Imagino-a com uma grave depressão ou, então, a pensar na vida. Talvez a pensar num rompimento de uma relação… Talvez a pensar que está a ter um dia rotineiro e que vai para o trabalho – ou que acabou de sair dele.

Ah! Não! Isso são os meus pensamentos.

Desvio o olhar.

Olho para o meu telemóvel à espera de uma mensagem carinhosa. Não chega. Que merda…

Penso no «xau» que atirei em casa. Penso que, apesar da frieza recíproca, que o amor está entre nós – ou a paixão, ou o que for. Sinceramente, acho que iria sentir a sua falta se não tivesse essa pessoa ao meu lado constantemente. Mas, quando chego a casa, a cama está quente. No entanto, a pessoa já lá não está.

Abro, no telemóvel, a conversa. Aí, nesse instante, cai-me uma mensagem. Recebo um emoji a atirar-me um beijo, com um coração. E o meu coração tremeu.

«Ia mesmo agora dizer-te alguma coisa!», respondi.

Realmente, isto acontece várias vezes.

Será o destino a dizer que esta é a pessoa que vai ficar comigo para sempre? Ou o «para sempre» existe apenas nas histórias? Eu até que acredito em algumas dessas histórias. E espero ter um «para sempre».

Voltei a encarar a rapariga, bancos à frente, que, ao seu lado, pousava a cabeça no ombro de um rapaz, com um sorriso de orelha a orelha.

E eu sorri. Invejei, um pouco.

Mas não há tempo para isso.

Vou trabalhar.

«Xau.»

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.