És muito mais do que aquilo que fizeram de ti – 2º parte

1991
Fotografia © Hernan Sanchez | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Hernan Sanchez | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Depois de vos ter falado sobre mim — quero dizer, sobre as atrocidades a que a vida me sujeitou —, venho falar de como saí do «sítio mau» em que estas coisas me deixaram.

Estava completamente perdida. Estava completamente violentada, psicológica e emocionalmente. Sentia que, se o destino me reservasse mais destes acontecimentos, não me ia sobrar alma.

Antes de mais, e digo-o especialmente para quem está no fundo do poço: não há nenhuma forma correta de agir, não há nenhum bê-á-bá da depressão e eu muito menos sou a pessoa indicada para dar lições. Lamento. Nunca vai embora para sempre a sensação de que fomos atacados, e que nos tiraram um pedaço de vida. Mas passa. O fundo do poço passa. Continua a estar lá, para sempre, mas, depois de subires cá acima e de olhares para a vista, vais fazer tudo para não voltar lá abaixo. Ainda que, como qualquer pessoa normal — e, sim, és uma pessoa normal, com cicatrizes, mas mais rica —, tenhas muitos dissabores e voltes a olhar para baixo, com a sensação de cair. Aquela vertigem na barriga, que só quem tem medo de alturas sente. Mas não vais cair, porque vais saber o que te levou até lá e pensar que, se não ficaste lá por coisas tão más, não voltas por qualquer coisinha.

Vais fazer o que tiveres de fazer. Vais passar pela fase da “ressaca”. Vais fazer loucuras. Vais descobrir-te. E descobrir como és sozinha e descobrir que os prazeres residem em tantas pequenas coisinhas como sentir o sol de inverno da cara. E vais florescer em redor da tua ferida. Vai deixar cicatriz, mas cheia de coisas boas em volta. E, um dia, vais olhar para a tua história e vais dar conta de que as feridas conseguem ser preciosas. Dão-te história. Não há nenhuma igual à tua, acredita. Vais ver um livro em que tudo em redor cresceu com mais significado, e mais bonito.

Respeita a tua história. Respeita as tua decisões passadas. Agiste em conformidade com o teu “eu” da altura. A experiência que tinhas, até então, levou-te a tomar aquela decisão que achaste ser melhor para ti. Se não foi, respeita-te. Eras a mesma pessoa apenas com uma história diferente. Logo, não podias compreender o que hoje te é tão claro. Respeita a tua decisão, ergue a cabeça e segue o teu caminho sem mágoa de ti própria.

Perdoa-te. Se puderes e achares que estás nesse lugar, ambiciona paz para os outros. Nunca esqueças. Nunca (até porque é impossível). Creio que até perdoar é uma palavra muito forte para tais monstruosidades, mas não desejes o mal. É um desperdício de vida e de energia. Se tiverem que se afogar, que seja no próprio veneno e não com tempo perdido da nossa vida. Já basta o que nos roubaram.

Não vejas nesta minha positividade uma paz de pessoa. Não sou. Sou ansiosa. Tenho imensos problemas de auto-estima, motivação e já tive de pedir ajuda médica uma vez, por não achar normal acordar de manhã com vontade de desaparecer do mundo. E chorar.
Enchia um lago, tantas lágrimas. Sou tudo menos paz. Tenho sempre o pensamento a mil. Analiso demasiado cada situação. E, muitas vezes, passo tipo furacão e sou bruta que nem uma porta. Eu gosto mais de achar que tenho personalidade, numa nota mais engraçada.

Abro aqui uma nota pessoal sobre a morte. A morte de uma pessoa intrínseca à nossa existência é um grande golpe emocional. Não a deixem passar de ânimo leve. Façam o vosso luto como sentirem que é devido. Este é um tema com que, ainda hoje, não consigo fazer pazes definitivas e há dias em que me dói como se fosse o primeiro. Não tenho uma boa relação com o desaparecimento de alguém que faz parte de tudo o que sou. Perdi a minha avó este ano. Portanto, não me vou alongar sobre este tema. É muito doloroso. Fica para outra altura.

Mas o universo reserva coisas boas para ti. É difícil, mas acredita. Mas há tanta coisa boa.
O amor gratuito passou a ser a coisa mais importante e emocionante que já vi. Este amor é tudo o que possas imaginar, e não só o amor “romântico”, embora este seja muito importante também. O amor que sinto pela minha avó, quase como se ela fosse mesmo nascida de mim. O amor que sinto pelo meu avô, pela minha mãe (toda ela merecedora de um livro inteiro sobre a sua vida, aliás, ambas), pelo meu irmão, pelo meu pai, pela família. Pelos meus amigos. Por cada pessoa que vou conhecendo e reconhecendo como sendo uma pessoa maravilhosa, e são algumas! Todos eles são razões para estar e ser feliz. Mas o amor maior é o que tens por ti. E, se estou a léguas de ser segura quanto à aparência, ao mesmo tempo estou sempre a sentir-me confiante sobre a pessoa em que me tornei, apesar disto tudo.

Descobri, há uns anos, o amor por viajar, conhecer este mundo e ser grata por cá estar. Encher os pulmões ao máximo e sentir o coração transbordar de coisas boas. As minhas cicatrizes fazem parte da minha raiz e, graças a elas, cresci mais forte. Não desejo a ninguém o que passei. Ainda hoje há dias maus, mas, graças a ser mais forte, consigo travar esse desafio diário pela sanidade e manter o equilibro.

Sejamos realistas. Mesmo com historias diferentes, todos nós temos demónios diários a combater. O segredo está nisso mesmo, no equilibro. Não ambiciones ter paz completa. Ninguém está sempre em paz. Ambiciona conseguir gerir os teus demónios, equilibrando com o que te faz bem. A partir de uma certa idade, ou acontecimentos da vida, dás-te ao luxo de dizer «não quero mais isto» e, efetivamente, reciclas a tua vida para o que te faz bem. Sem culpas.

Claro que nada do que estou a dizer fará sentido para quem está lá em baixo. Vão achar «ela teve sorte» ou «ela teve ajudas». Nada disso, malta. Sou a pessoa mais azarada que existe. Se tiver de cair um raio num sitio onde nunca tenha caído, é em mim. Se tiver um azar, tenho de o resolver sozinha ou, no máximo, tenho ajuda do meu namorado.

Essa outra coisa boa, o meu namorado. Atenção que isto não é uma declaração (mas é).
Gosto muito da pessoa com quem estou, muito. É o meu melhor amigo, sempre.
Mas, quando nos violentam ao nível destas relações, achamos que não merecemos mais que aquilo. Há um filme de que gosto muito que tem a seguinte frase: «Nós aceitamos o amor que merecemos» e, acreditem, é mesmo isto. Só te vais deixar ser amado até onde achas que mereces. A partir daí, vais tentar sabotar o teu pensamento e a própria relação para não resultar.

Uma coisa engraçada disto tudo é a sabotagem que fazemos a nós mesmos quando estamos mal. Chega a ser um mau estar físico. A falta de forças é real. Chega a doer fisicamente. Não conseguimos literalmente sair do mesmo sitio. Apetece ficar na cama e deixar a tempestade lá fora, quando, na realidade, ela está mais que presente cá dentro. E o sol devia brilhar todos dias em ti primeiro.

Até encontrares essa “luz” e vontade em ti, este texto vai soar banal e apenas positivo, porque eu consegui. Mas, acredita, se eu consegui, qualquer pessoa consegue.

Sê forte. És muito mais do que aquilo que fizeram de ti. Muito mais.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorNunca tive Roma, apenas Oxes
Próximo artigoQue importa ser alguém?
ANDREIA FERNANDES, a destemida
27 anos. Sensível, engraçada e sarcástica. Convicta, mas sem fanatismos. Ansiosa e com uma queda para o dramático. Amante de leitura, música, cinema, pessoas de bom coração e mesas bem servidas. Sonha percorrer o mundo, e saber um pouco de tudo, sem nunca ter certezas absolutas de nada. Acredita piamente que a busca pela individualidade é infinita, que o amor se faz chegar de todas as formas e que não há limites para se ser feliz.