Nunca foi fácil para ti

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Fotografia © Rita Gonçalves | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Rita Gonçalves | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Já olhei para ti antes, mas nunca com os olhos que devia. Continuas na mesma. Apenas um bocado mais “polida”. Estou a olhar, agora, para ti e a pensar como chegaste até aqui. Não é fácil. Nunca foi fácil para ti. Mas, como costumam dizer, Deus só dá aquilo que sabe que consegues aguentar.

Podias ser mais racional, mas teimas em guiar-te pelo emocional. O teu coração é sempre dono de ti. Põe-no um pouco de lado. Vive por ti. Não vivas pelos outros. E não, não estou a ser politicamente correta. Vai com tudo o que vales, com tudo o que tens. Já desperdiçaste muito de ti em detrimento dos outros. Vai, agora. Lá fora, o tempo não para.

Olho para ti e vejo muito talento e muita preguiça. Deixas-te vencer por ela. Vais sendo empurrada pelos outros, porque te dizem o que te digo agora, porque veem em ti o que tu não vês.

Vai agora. Cá dentro, o tempo também não para. Vive um dia de cada vez. Não tentes planear o que vais fazer daqui a um ano! Não olhes para o amanhã como uma folha de excel, estritamente planeada ao mais pequeno detalhe. As tuas desculpas ouço-as todos os dias. Deixa-te disso. Já não acredito no que queres dizer a ti mesma.

Eu acredito em ti. Sabes que sim. Sou aquele teu lado mais forte a falar. Quase nunca venço nos desafios da vida, mas é graças a mim que ainda aqui continuas. Levantas e cais mil e quinhentas vezes desde que te conheces. Achas que isso não chega para provar que tens uma garra danada? Não sejas só o que sentes. Isso pode ser o que conquista, mas também te pode levar à solidão. Sê mais dura com os outros. Exige mais de ti. Tens poucos defeitos. Devias dar graças por isso, mas ainda assim calharam-te os mais complicados.

És ansiosa, maricas, introvertida, dura contigo. Pensas demasiado nas coisas. Imaginas umas quantas outras e ainda consegues ser teimosa. Tenta equilibrar as coisas. Tens talento para a música, para a fotografia. És auto-didata nas mais variadas áreas. És responsável, trabalhadora e a melhor amiga de quem te abre o coração. Já para não falar do quão paciente tu és com os outros. Aguentas tudo pelos outros, nem que seja uma noite inteira só a escutar o que têm para te dizer.

Demoraste muito a descobrir o que querias para a vida, mas nunca é tarde. Agora, que encontraste o teu caminho, deixa os que te amam orgulhosos. Deixa-te orgulhosa de ti também. Sabes que a felicidade só vale a pena quando partilhada. Pelo menos, é o que sentes, mas se apenas a podes partilhar contigo já não é nada mau.

Acho piada ao que tu escondes de forma tão natural. Utilizas uma manta da invisibilidade tal e qual como a do Harry Potter, mas só na alma. Ninguém percebe o que sentes. Só quando o permites, ou então só aos que permites. Os que te conhecem sabem quando a usas. Olha que não é fácil perceberem isso. És inteligente. Acho que tens inteligência em demasia. Isso não é favorável, porque pensas em tudo de maneira profunda e meticulosa. Vês e questionas o mundo de forma diferente dos outros. Já te vi uma vez perguntar a ti mesma se eras um alien. Até podes viver noutro mundo, mas queriam os aliens ser tão à frente como tu.

Estou a olhar para ti, de novo, e fico feliz por saber que gostas de ti e que sabes, agora — pelo menos, na maioria das vezes —, o quão bonita és. Principalmente, do coração para fora.

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