Não sinto que seja Natal

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Fotografia © Toa Heftiba | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Toa Heftiba | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Estamos no mês de Natal. Época de grande consumismo, nervos e ansiedade pelas compras de última hora.

Andar pelas ruas iluminadas, cheias de figuras natalícias, fazia-se ouvir cânticos de Natal. Trazia nos braços muitos presentes. Andava sempre sorridente e cheia de felicidade estampada no meu rosto. A família reunia-se para a tão célebre ceia de Natal, onde na mesa de jantar estava o típico bacalhau cozido. Debaixo da árvore de Natal, havia imensos presentes, de vários tamanhos e cores. Ainda me recordo de, no dia 24 de dezembro, a minha mãe estar de volta das panelas a cozinhar. Sabia tão bem! Aquele cheirinho a doces que se fazia sentir pela casa toda. O meu pai já na prova de qual seria o melhor vinho para o apetitoso jantar.

Era uma delicia!

As risadas contagiantes das crianças a correr pela casa, ansiosas pela vinda do Pai Natal. A casa quentinha e repleta de harmonia e amor. No final da noite, abria-se os presentes com imensa euforia, tentando adivinhar o que estaria nos embrulhos.

Como eu amava o Natal. Era a época em que sentia uma enorme felicidade.

Faz, agora, três anos que o Natal foi perdendo encanto. Não me apetece ir às compras. Nem preocupada estou com os presentes. Ainda nem sei onde vou passar a noite de consoada. Apetecia chegar ao calendário e banir a data natalícia. Mas seria de grande egoísmo. Até me agonia estar a transmitir tal desalento, repleto de tristeza.

Acabou o amor.

Acabou a harmonia.

Tudo deu lugar a sorrisos forçados, a engolir em seco e ficar com um nó na garganta. Não haverá à mesa tema de conversa que faça feliz toda a família. Existe uma nuvem negra por cima desta família, que, um dia, foi imensamente feliz nesta época natalícia.

Estamos quebrados.

Estamos tristes.

Não sei o que posso fazer para mudar esta nuvem negra para um arco íris. Na verdade, nem forças tenho e duvido que, um dia, venha a ter.

O ano que irá entrar não se prevê que seja melhor. A tendência é piorar. Porque muitas mudanças se reservam, que irão magoar muitos corações.

Depositei muitas expetativas numa nova família que nunca irei ter. Culpo-me de tudo que tem sucedido ao longo destes três anos. Sinto muitas saudades desta época natalícia. Sinto falta da harmonia e do amor que, um dia, se fez sentir nesta família. Gostava de pensar que, um dia, a esperança venha como presente de Natal, embrulhada com um enorme laço vermelho. Que essa esperança me devolva o que já se perdeu. Que a esperança me faça sonhar com um Natal feliz. Que essa esperança me faça renascer de novo, com aquela alegria e com o sorriso que me foi roubado.

A todas as famílias desejo um Santo e Feliz Natal, repleto de amor e harmonia.

Sejam imensamente felizes, por favor!

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MATILDE GOMES, a emotiva
É sonhadora — tanto que, desde há muito, tem uma lista de sonhos a realizar — e é a viajar que quer iniciar a sua aventura pela vida. Apaixonada pela leitura, é na escrita onde se sente livre, tendo sempre presente o amor e a dor. O seu interior é um turbilhão de emoções, onde reside as lágrimas e os sorrisos. Para a Matilde, o abraço é o gesto que melhor revela os sentimentos.