Que importa ser alguém?

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Fotografia © Redd Angelo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Redd Angelo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Existe, naquilo a que chamamos vida, uma suposta obrigação em ser-se alguém e foi bem cedo que me apercebi desse pressuposto, pois também eu sentia em mim essa necessidade, como se «ser alguém» fosse uma espécie de meta a atingir.

Sempre fui muito ativo e, desde que me lembro, envolvi-me em diversas atividades desportivas. Dos trampolins à canoagem, da corrida ao futebol, todo o desporto me agradava. Porém, nunca «cheguei a nenhum lado» nesses desportos.

Na escola, o meu percurso também teve os seus altos e baixos. Apesar de reprovar uma só vez, sempre tive alguns problemas provocados pelo meu desassossego. Os professores diziam sempre o mesmo: «Se o Diogo não fosse tão irrequieto e desinteressado, podia ser um dos melhores alunos.» Mas isso pouco me interessava. O que eu queria era divertir-me e ser criança.

Com os anos, tornei-me mais responsável. Ainda assim, não tive muito sucesso. Concluí o curso de cozinheiro que frequentei e trabalhei em alguns locais de prestigio, mas nunca me consegui impor nesse meio.

Há cerca de três anos atrás, os meus pais, com muito esforço, abriram um café para que eu tivesse trabalho. Durante três anos, geri esse café e as coisas até corriam bem, mas não me sentia feliz. Muito menos me sentia «alguém» e, por isso, resolvi mudar.

Deixei o café este ano. Agora, com o que poupei, voltei aos estudos e entrei na faculdade. Talvez nunca venha a ser alguém. Talvez nunca alcance nenhum tipo de poder ou fama. Mas aprendi uma coisa com o tempo: ser alguém limita-nos; ao sermos muito bons numa coisa, deixamos de parte todas as outras.

Eu nunca fui bom nos trampolins, mas adorava a liberdade que sentia ao voar em cada salto. Nunca fui bom no futebol, mas ainda hoje não há desporto que mais goste de fazer. Nunca fui bom na escola e, por isso, mudei muitas vezes de rumo, podendo aprender sobre diferentes temas. Nunca fui bom no trabalho, mas já senti as diferenças que há entre cada profissão. Por fim, nunca fui bom na vida e nunca me tornei «alguém», mas uma coisa é certa: descobri que sou feliz, pois, não sendo nada, não existem limites. Hoje, sei que por não ser «alguém» posso ter o prazer de tentar ser tudo. Limitarmo-nos a uma meta tira-nos todas as possibilidades.

Sei que ainda sou jovem e não passo de um miúdo, mas que importa ser «alguém» quando podemos ser tudo?

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DIOGO SILVA, o D(eu)s
Estudante na Faculdade de Letras de Lisboa, a escrita sempre foi uma paixão desde novo, mas, apesar disso, antes das letras foi a cozinha que passou no seu percurso, tendo concluído o curso de cozinha/pastelaria em 2010. Atualmente, além da escola, divide o seu tempo entre o futebol e a página de escrita que gere.