O mundo de onde tu fugiste

2142
Fotografia © Brooke Cagle | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Brooke Cagle | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Lá fora, há um mundo que não para. Lá fora, há gente que não sabe o que nós sentimos. Gente que corre. Gente que não pensa. Gente que sente, sem saber o que sente.

Lá fora, no mundo real, existem outros que não sabem quem eu sou, por muito que os seus sentimentos sejam iguais aos meus. A diferença é que eles negam o que sentem. Não sabem a dimensão de sentir, de amar, de viver. Vivem porque vivem e não pensam no valor da vida, que todos os dias caminha com eles nesse mundo de gente acelerada.

Lá fora, mora o meu amor. Naquele mundo que vive entre o paraíso e o inferno. É num qualquer recanto escondido que mora quem eu amo. Talvez viva escondido, entre uma multidão de desconhecidos, com que todos os dias se cruza. Mas é lá que ele vive, enquanto eu me fecho no meu castelo, desenhando sonhos que julgo serem cor-de-rosa. Faço-o por discordar desse mundo, que me pinta a vida de negro. Fico aqui, sozinha, para poder sonhar que este amor é só meu.

Lá fora, nas ruas desse mundo cruel, que não me entende, andas tu, meu príncipe encantado. Vais rua abaixo, cantando o teu fado. Voltas rua acima, assobiando uma música qualquer para te assustar o destino, que te dá tudo o que não lhe pedes. O mesmo destino que te nega tudo o que tu sonhas.

E o tempo voa, foge-te da vida. A vida que passa por ti a correr e, tu distraído, nem a vês passar. Os anos vão-te soprando, na memória, ventos de recordações passadas. Os que já não contabilizas riem-se de ti, roubam-te a felicidade, e tu nada fazes para o contrariar.

Aqui, nas muralhas do meu sofrimento, na prisão em que a solidão é minha guardiã, eu fico a ver-te sofrer, sem que nada possa fazer. As noites são longas. Sobra-me tempo para contar as estrelas. Já sei os seus nomes de cor. Afinal, são tantos anos a contá-las, que já sei de olhos fechados quantas estrelas há neste céu.

Vou vivendo assim.

Talvez tu me digas, um dia, que eu fui sobrevivendo. Sim, porque isto não é viver. É ter medo de um dia morrer, sem ter tido a oportunidade de te conhecer. Vou só desenhando sonhos. Construindo ilusões. Pintando cenários para a nossa paixão. Sonhando que tu, um dia, vais ficar farto desse mundo, que, aí fora, te faz carregar nos ombros a dor de não teres um amor.

Quem sabe se, nesse dia, tu não decidirás fugir até mim! Se não vais saltar a muralha e, a sorrir, dizer-me «estou aqui»? Quem sabe se não vens a correr para os meus braços, com a certeza de que este é o teu lugar? Junto de mim. E, ao pôr do sol, ficaremos abraçados a ver o mundo lá fora sempre a correr. O mundo onde só se aprende a sofrer. O mundo em que eu não quero viver.

O mundo de onde tu fugiste!

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorPorque a luz própria te faz ser livre!
Próximo artigoO meu Natal
ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.