Dizer «amo-te» não é, de todo, inadequado

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Fotografia © Carlos Santiago | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carlos Santiago | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Gonçalo contava os dias, as horas, os minutos. Sentia-se num frenesim intenso. Tudo mexeu e ainda mexia muito consigo. Dava, por vezes, consigo próprio às voltas. Agarrou no casaco e saiu sem pensar, e assim foi, a pé, livre e sem preocupações. A chuva caía, mas nem isso o preocupou. Ao longe, começou a sentir uma música a tocar. Acompanhava a batida. Sorrindo, lá começou a cantar:

«Well, how’s your view of things today?/ Got up young to fade away/The sinners sin but aren’t aware/Our fables take us everywhere»

O telemóvel tocava sem parar. A música tinha-o levado para aquele mundo em que só ele vivia. Ao olhar para o écran, saiu o espanto: «Luísa?»

— Olá! Boa noite!

— Olá, Luísa. Tudo bem?

— Gostava de te perguntar uma coisa, Gonçalo… Podes responder apenas sim ou não, como achares melhor… — Luísa atacou logo a questão.

— Sim. Chuta.

— Tu falas, ou não, para mim? Ou devo perguntar se é suposto eu falar ou não contigo? Não sei qual das duas…

— Porque não haveria de falar, Luísa?

— Não sei, Gonçalo. Confesso que fiquei baralhada com as últimas vezes em que nos encontrámos e queria só confirmar.

A vontade de lhe dizer que o motivo de estarem distantes é toda de Luísa foi enorme. A vontade de dizer que nem a queria ver à frente, mas que ficava horas a ver as suas fotografias, foi maior ainda.

— Eu não tenho por que não falar, Luísa. Não te nego o desconforto ou o ficar sem saber como reagir. Nada mais.

— Gonçalo, eu voltei a ver-te no outro dia… Por isso, me ter decidido a falar-te hoje. E confirmo. Eu não mordo!

Gonçalo só conseguiu sorrir. Ficaram ali a conversar o que lhe pareceram horas intermináveis. E só quando a bateria se foi é que se conseguiu abrir:

— Nem sei como é que eu ainda consigo sorrir no meio de tanto desgosto! Não sou do tipo de pessoa que só vê arco-íris e alegria, e a verdade é que há coisas que nunca mudam. A história tem forma de se repetir. Se eu continuar a viver no passado, sei que vou acabar a viver sozinho. Eu continuo apaixonado por ti. Só queria que soubesses isso. Dizer «amo-te» não é, de todo, inadequado. Dei-te a minha mão, o meu coração e o meu amor. Não consigo imaginar a minha vida sem ti, porque, quando sou cínico, dás-me esperança e, quando perco o rumo, és o meu norte. Apenas te consigo dizer que cada dia que passa te amo mais.

As lágrimas misturavam-se com a chuva que caía. Gonçalo ficou, por breves instantes, a olhar para o telemóvel desligado. Encolheu os ombros e seguiu com a música na cabeça…

«We don’t need to trust a single word they say/ You are creating all the bubbles at play»

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NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.