Terei eu perdido o brilho?

1951
Fotografia © Silvia Santos | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Silvia Santos | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Há dias assim…

Dias em que te olhas no espelho e nada vês e, contudo, tudo lá está. Dias chuvosos e cinzentos que incitam a melancolia que existe em mim. E olho-me através deste espelho baço a precisar de ser limpo. Ou terei eu que perdido o brilho neste meu caminhar?

Lá estou eu a atirar para o sentimentalismo outra vez. E, mais uma vez, estou nisto, nesta minha mania de pensar e repensar na vida. No tanto que sou, no que não sou e gostaria de ser. Neste percurso percorrido.

E se voltar a olhar para os meus olhos, neste espelho baço, sem pestanejar? Vejo uma Sílvia. Uma não. Vejo várias Silvias. A menina, a mulher, a destemida e a insegura. Ora alegre, ora melancólica. De riso fácil e de lágrima no canto do olho, ou num engolir seco, pois muitas vezes encubro o que sinto, evitando chorar. Sim, porque eu tenho tanto de forte como de frágil e sensível. Mas sou tão inconstante e tão imprevisível nas minhas emoções e dúvidas, que, ocasionalmente, ainda me surpreendo a mim própria. E indecisa. E quantas vezes esta indecisão e esta insegurança me bloqueiam o agir. Sempre com mil idéias e uma imaginação fértil, peco, por vezes, no concretizar das mesmas.

Porquê? Porque consigo fazer pelos outros o que, por vezes, não consigo fazer por mim?

E lá estou eu. Isto hoje está complicado. O espelho está mesmo embaciado e só estou a conseguir ver o meu lado obscuro.

Já tantos sonhos concretizei, com esforço e dedicação. Projetos a que me propus e que realizei com sucesso. Sempre tive em cima de mim o peso da perfeição, de fazer tudo certinho, mas aprendi e estou ainda a aprender que nem tudo tem de ser assim — perfeito. Porque é, muitas vezes, na imperfeição que reside a felicidade.

É assim, não é, menina Silvia ou Aivlis, como te costumas intitular? Aivlis, o meu nome de trás para a frente, porque sou a dualidade em pessoa.

E esta minha necessidade incessante de respostas, esta busca permanente de respostas lógicas e ponderadas, esmiuçando todos os detalhes e pormenores, contrasta com esta minha sede de viver, de experienciar coisas novas, novas pessoas, explorar o mundo, culturas, usos e costumes. Estou sempre à procura de algo — nem sempre sei do quê. E tão grata sou por tudo o que tenho e obtive. Mas a insatisfação reina em mim.  O meu eterno conflito entre o ser sentir e o ser pensante.

Doçura, candura vejo, em mim, agora. Que turbilhão de sentimentos o espelho me devolve. Sim, sou amiga, comunicativa e empática. Não tenho grande maldade, nem sou cínica. Sou compressiva, demais até. E as pessoas veem em mim alguém em quem confiam e com quem podem partilhar a sua vida. Mas sinto demais, e deixo que as pessoas me magoem. Penso tanto que não fui feita para este mundo. Que posso ser o arco-íris na vida de muita gente que comigo se cruza, que lhes deixo um sorriso no rosto nos seus dias mais sombrios, que estou lá para uma palavra, um afeto, um abraço, um estar. Mas que me magoo, por ser assim, de me dar e de me entregar de coração.

O espelho, agora, brilha. Já vejo os meus olhos límpidos, brilhantes. Sou assim, porra! E que tal aceitares-te assim mesmo, seu ser pensante, seu ser agir, seu ser sentir? Afinal, devo ser mesmo uma mulher-menina, daquelas que não sabe que sabe e pensa que não sabe. Mas sabe. Lutadora e aventureira, versátil e adaptável, persistente, vencedora, que se consegue colocar facilmente na pele dos outros e agir em conformidade. E que aprecia o que a vida tem de melhor, os sentimentos bons, de amizade, de família, de amigos, de descoberta de mim, dos outros e do mundo, de perdão e solidariedade.

E esta sou eu. Esta e muito mais Silvias que existem em mim.

Porque há dias assim…

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.