Já (não) acredito no Pai Natal!

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Fotografia © Tim Gouw | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Tim Gouw | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Carolina resmungava, entredentes, no caminho de regresso da escola. A mãe, intrigada, perguntou-lhe o que se passara para estar assim tão zangada.

«Lá na escola, pediram para escrevermos uma carta ao Pai Natal com a ajuda dos nossos pais. Não sei porque é que temos que mandar uma carta a uma pessoa inventada. Os meus colegas não param de falar nisso. Estou farta de os ouvir!» Desabafou a pequena petiz.

Carolina tinha apenas cinco anos e até era dotada de uma imaginação muito fértil. Porém, custava-lhe acreditar que existia um Pai Natal, que vivia lá bem longe, quando os encontrava esquina sim, esquina não. E, ainda por cima, tinham todos caras diferentes.

«Os meus colegas são todos uns tontos. Acreditar no Pai Natal é para bebés!» Continuava Carolina, enquanto entrava em casa, com passo pesado, revoltada com o mundo.

Contrariada, a miúda pousou a mochila, tirou um caderno e lápis, e foi ter com a mãe à cozinha para que esta a ajudasse a escrever a carta. Já que tinha que ser, que fosse logo.

A mãe sentou-se à mesa, com a filha ao lado, e anotava as palavras que a filha lhe ditava. Sorria com a atitude descrente da filha.

«Caro Pai Natal, não sei porque tanta gente acredita em ti, quando tu, na verdade, não existes. Nem sei quem é que lê estas cartas parvas que nos obrigam a escrever lá na escola. Não te vou pedir prendas porque sei que são os meus pais que mas dão. Mas vou-te pedir que, se tu fores real, me envies uma prova. Obrigada.»

No dia seguinte, a carta foi entregue à professora, que prometeu enviá-la ainda nesse dia, para que chegasse a tempo do Pai Natal preparar as prendas. Enquanto ouvia, Carolina revirava os olhos e soprava.

Dias depois, Carolina aguardava na porta pela mãe, para ir para a escola, quando viu, junto à caixa de correio lá de casa, um senhor pequenino a por qualquer coisa lá dentro. O homem, apercebendo-se que alguém o vigiava, olhou para a menina, sorriu, piscou-lhe o olho e foi-se embora. A mãe, entretanto, juntara-se à filha.

«Quem é aquele senhor? É tão pequenino e veste-se de uma forma estranha.»

«Não sei. Talvez seja um senhor que distribui publicidade do centro comercial da cidade. E, como é Natal, deve andar vestido de duende. Deve ser um ajudante do Pai Natal que está lá a receber os meninos.» Supôs a mãe.

Mais tarde, depois de ter ido por a filha à escola, a mãe foi buscar as cartas ao correio e levou-as para casa. Por entre a pilha de publicidade e contas, encontrava-se um envelope vermelho debruado a dourado, dirigido apenas à «menina Carolina».

À noite, a mãe sentou-se junto à filha na cama e mostrou-lhe a carta.

«Uma carta para mim? Do Pai Natal?» A menina recusava-se a aceitar.

«A mãe vai lê-la para ti.»

«Sim. Pode ser.» Carolina cruzou os braços aborrecida. Estava convencida de que a carta havia sido escrita pela professora.

«Querida Carolina, recebi a tua carta e fiquei muito triste por saber que não acreditas que eu existo. Pedes-me uma prova, mas não sei qual prova te mandar. Sabes, nós existimos enquanto as pessoas acreditam em nós. São os vossos sonhos que nos sustentam, cá muito longe. A mim, aos meus duendes e às renas. São eles que mantêm tudo a funcionar desde a receção das vossas cartas até à entrega das prendas. Esses senhores, que vês vestidos iguais a mim, são apenas ajudantes porque eu não consigo estar em todo o lado. Alguém tem que cá ficar a coordenar as operações. Já fomos muitos mais do que somos hoje. As crianças, hoje em dia, são distraídas por tanta coisa, que já não sonham, nem imaginam. Alguns duendes tiveram que arranjar outro trabalho. A produção de presentes também é menor. Se, um dia, ninguém acreditar, não morreremos, mas também não estaremos mais por aqui. Carolina, acreditar em nós é o mesmo que acreditar nos sonhos. Há uns meses atrás, a quem é que pedias que cuidasse do teu avô que estava no hospital? Vias essa pessoa? Então, porque o fizeste? Sim, nós vemos tudo. As vossas alegrias e tristezas. Espero que voltes a acreditar em nós um dia. Feliz Natal, doce Carolina.» Assim se despedia o Pai Natal na sua carta.

Carolina estava incrédula. Ninguém a vira a rezar pelo avô! Ele tinha razão. Rezara porque acreditava que havia alguém que zelaria pelo seu avô, mesmo desconhecendo se esse alguém realmente a ouviria. Seria possível que, afinal, o Pai Natal, também existisse mesmo?

«Mãe, podes escrever outra carta para mim?» Pediu a menina.

Na noite de Natal, em cima da lareira, estava um envelope rosa dirigido ao Pai Natal, aguardando a sua passagem pela casa quando viesse distribuir as prendas. Na carta, a menina pedia desculpa por ter deixado de acreditar e dizia que não queria que nenhum duende ficasse sem o seu trabalho por causa dela. Sossegou-o, prometendo dizer aos seus colegas que ele existia mesmo.

No dia seguinte, Carolina ficara feliz quando não encontrara a carta no seu sítio.

«Mãe, o Pai Natal levou a carta!»

De um canto da sala, a mãe sorria cúmplice para o pai. Ainda bem que tinha uma linha direta para o Pai Natal. A sua filha era ainda muita nova para deixar de acreditar e de sonhar. Tinha muito por viver ainda, muita imaginação para usar. Por enquanto, ela que acreditasse no Pai Natal.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.