És muito mais do que aquilo que fizeram de ti – 1ª parte

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Fotografia © Skitter Photo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Skitter Photo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tenho quase 30 anos e só há pouco tempo consegui afirmar para mim mesma: Fui vitima de atos que, além de serem considerados crimes, vincaram a minha personalidade, e me mudaram para sempre.

Entrar para esta plataforma e conhecer pessoas com as mesmas “feridas” ajudou, em muito, à vontade de escrever este texto. Sou-vos grata até ao fim dos meus dias pelo pouco — tanto — que já me deram de vós.

Aceito-me com todas estas vivências, mas torná-las públicas é um golpe grande para mim. Não gosto de não ter controlo sobre a ideia que tenham de mim. Sinto até que isto será um grande passo pessoal, a esse nível. Porquê falar, agora, sobre isto? Porque é uma questão de paz comigo mesma. Já fiz todas as declarações de paz que podia interiormente. Falta-me escrever sobre isso para “selar” esta paz. Já o fiz em privado também, mas, se este pedacinho da minha vida ajudar uma mulher que seja, já terei feito muito!

Tinha cerca de 7 anos quando, no seio da família da ama que os meus pais escolheram para tomar conta de mim, havia um monstro. Antes fosse o papão. Não era.

Este monstro tinha por volta da idade que tenho agora, 28 anos, e, graças a deus, a minha memória escolheu apagar grande parte das recordações.

Ele fez-me mal. Abusou de mim.

Na minha inocência, escolhi fazer daquilo “nada” até ter idade suficiente para entender o que tinha sido. Escondi a roupa suja. Não contei a ninguém. Não sabia como. Lembro-me de ter tentado, mas de ter desistido, pois tudo o que tinha eram 4 ou 5 recordações e nenhuma prova.

Até hoje, ainda descubro memórias que ligam a esses momentos. Dormi mal o resto da minha vida como pré-adolescente e adolescente, com medo do escuro (ainda hoje, medo do escuro e do que esteja por lá). A minha mãe, preocupada e sem saber, levou-me ao psicólogo porque «a menina não dorme quase nada». Contou-me, mais tarde, que tinha a suspeita de que me teriam feito mal — nem ela sabia o quão certa estava — não disse nada ao psicólogo, apenas que tinha medo do escuro. Foi tudo tido como um problema de ansiedade pré-adolescente e passou ao lado. Não fui capaz de dizer nada.

Ainda hoje sou super ansiosa. Mesmo. A nível de ataques de pânico.

Passados nove anos, tive o meu primeiro namorado. Estávamos apaixonadíssimos. O primeiro ano de namoro foi intenso, a descoberta sexual (onde recuperei muitas memórias do acontecimento anterior, e aprendi a diferenciar sexualmente o abuso e a descoberta sexual “normal”), os beijos, os abraços, a loucura da primeira paixão, tudo.

Ele tinha sido ciumento desde sempre, mas achei, como achamos todas (não se iludam) que era por gostar muito de mim. Aos poucos, e com tanto ciúme e possessividade, fui-me isolando de toda a gente, a ponto de ficar sem amigas(os). Só o tinha a ele, numa relação completamente obsessiva. Não o culpei. Culpei a infância dele, com um pai igualmente obsessivo, com comportamentos doentios.

Esta era a realidade que ele conhecia. Logo, para ele, não me magoava. Desculpei-o tantas, tantas vezes. A violência psicológica e a pressão eram uma constante. Já a violência física ocorreu três ou quatro vezes. Cheguei a ter medo de sorrir a um desconhecido na rua, ao senhor da farmácia, ou quem quer que fosse.

Com a falta de carinho, o sexo tornou-se a única réstia de “contacto” verdadeiro entre nós. Houve muitas vezes que já não falávamos. Era aquilo e ponto. Eu ia-me embora. Como se fosse uma ferida muito preciosa, nascida da relação doentia. Como se fosse a única coisa que restou de mim e de nós, naqueles 3 anos. O meu avô faleceu em março. Eu acabei o namoro em abril.

Não sei como é a vossa relação com os avós. Acho que toda a gente devia ter a minha. São os meus heróis. O meu avô, ainda hoje, é e será sempre um pedaço de tudo o que faço. Deu-me o gosto pela leitura, a curiosidade pela história e o mau feitio. Foi a primeira pessoa que me morreu, e partiu-me o coração.

Fiquei vazia. Senti-me desmembrada até.

Mas decidi que, se tinha sobrevivido a isto, também sobreviveria ao terminar o único elo que tinha com quem me fazia tanto mal. Encontrei carinho num amigo que se aproximou de mim, e em segredo. Enchi-me de coragem e terminei o namoro. Como qualquer relação doente, levou o seu tempo, recaídas, tentativas de contacto e muita humilhação. Ele arranjou uma nova namorada. No entanto, continuava a manter-me, com um cocktail explosivo de dependência emocional, violência e chantagem. Chegou a ameaçar-me de morte quando ela estava presente, e a chamar-me para ir ter com ele, no mesmo dia. Cheguei a estar à porta dele, de manhã, a pedido dele e ele lá em cima com ela, que tinha lá dormido, a dizer que eu era doente e o seguia. Fazia tudo para estar longe, mas estava tão frágil e dependente que voltava.

Um dia, deu-se o impossível.

Engravidei.

Descobri já no limite de poder abortar. Oito semanas. Sempre fui a favor do aborto. Nunca de ânimo leve. Sempre com as minhas cláusulas morais. Mas a dualidade deste conceito é tão diferente quando é connosco.

Tinha 18 anos. Estava a estudar e a trabalhar a part-time. Não tinha sequer o 12º ano. Estava grávida de uma besta quadrada, que não me queria bem e me tinha ameaçado de morte. Na família dele, grande parte dos bebés (meninos) nasciam com algum defeito genético, ficavam doentes ou tinham muitas fragilidades a nível de saúde. Todo um aglomerado de coisas horrendas, com as quais uma miúda de 18 anos não tem como lidar.

Lembro-me, perfeitamente, de estar sentada na enfermaria do meu centro de saúde a indicar a minha decisão, a chorar baba e ranho. Perguntei mil vezes se isto ia ter alguma consequência no futuro, na minha saúde, na minha fertilidade ou até na saúde dos meus futuros bebes. Sempre quis ser mãe. Sempre imaginei o momento mais bonito de sempre quando descobrisse.

Sempre fui boa miúda. Sempre me soube precaver e achava que isto só acontecia às outras pessoas. «Porquê a mim?», perguntei tantas vezes.

Entre saber e ter consulta no hospital, foram dois dias. Nesses dois dias, caí. Caí mesmo. Houve alturas em que achei que não «estava lá». Só podia ser a vida de outra pessoa. Só podia mesmo. Não podia ser a minha. Logo eu, tão calminha na minha rebeldia normalíssima e adolescente.

Fiquei na cama, dormi e estive em dormência quase todo o tempo. Chorei até não ter lágrimas. Fingi um quisto (que tive na realidade) como justificação familiar por estar na cama, faltar à escola e ao trabalho.

Ele não quis saber. Só me perguntou «já está?», como se se tratasse de pagar a conta da luz.

Durante todo o processo pedi desculpa àquele ser, sem ser, que carreguei em mim durante oito semanas. Não me perguntem porquê. Sempre o tratei por ele.

Senti-me um monte de esterco por ter tomado tantas decisões erradas, por ter chegado àquele ponto. O meu avô tinha falecido há menos de um ano, tinha desfeito a relação obsessiva e doentia com toda a “ressaca” e solidão que isso me trouxe, e tinha perdido um filho. Assim, num ano, três golpes de uma assentada.

Estava sem chão. Estive de cama duas semanas em dormência absoluta. Estive seis meses em piloto automático da minha vida. Ponderei se fazia sentido por cá andar.

Fui ao fundo do poço.

Depois disto, o que há a fazer? Levantar.

Mas isso fica para o próximo texto.

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ANDREIA FERNANDES, a destemida
27 anos. Sensível, engraçada e sarcástica. Convicta, mas sem fanatismos. Ansiosa e com uma queda para o dramático. Amante de leitura, música, cinema, pessoas de bom coração e mesas bem servidas. Sonha percorrer o mundo, e saber um pouco de tudo, sem nunca ter certezas absolutas de nada. Acredita piamente que a busca pela individualidade é infinita, que o amor se faz chegar de todas as formas e que não há limites para se ser feliz.