Um amor inteiro, se faz favor!

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Fotografia © Kristina Paukshtite | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Kristina Paukshtite | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Se há uns anos me dissessem que, no final, o que interessa é que o amor venha sereno, sem grandes sobressaltos, que se instale de uma forma tranquila, eu diria, veementemente, que sim; que até podia vir assim – dessa forma meia morna –, mas para os outros. Não para mim. Para mim, amor conjuga(va)-se com o querer, desenfreadamente. Querer de forma insana. Querer ao outro muito mais que a nós próprios. Gostar a sério significava que tinha de se mostrar. E mostrávamo-lo da pior maneira. Sofrendo. Sofrer por amor. Se houve expressão que eu soube conjugar, foi esta. Sofrer por amor. Sofrer por gostar. Sofrer por querer. Sofrer por amar. Dizem que o amor não se escolhe. Eu cá desconfio que os meus amores foram todos escolhidos a dedo. Os amores fáceis não me ofereciam sabor. Não me eriçavam a pele. Não me aceleravam o coração. E, se não eram assim, era porque não eram amor – pensava eu, com todas as certezas do mundo. Amor que é amor causa insónias. Não nos deixa repousar o corpo porque a alma está inquieta. E é à conta desta inquietude de alma que amamos desta forma sôfrega, insana, tantas vezes inconsciente até. Acreditamos em amores impossíveis e movemos a montanha mais alta do mundo do nosso caminho, se for preciso. Amamos às três da manhã porque o nosso amor não se compadece em esperar por horários normais. Amamos, muitas vezes, sem condições para nos convencermos que assim é que é amar em condições. Amamos para sempre, tentamos para sempre, mas o nosso «para sempre» vem sempre com os dias contados. E, chegados ao fim, lá estamos nós a sofrer, novamente, por amor. Sofremos por amar e sofremos ainda mais para deixar de amar.

E, quando pensas que já sabes de cor do que é feita a tua essência, o teu sentir; quando tens a certeza de que não sabes sentir doutra forma – mesmo que esta não seja a forma mais eficaz –, eis que, serena e gradualmente, dás por ti a abandonar – ainda meia desconfiada – todas estas verdades com as quais já aprendeste a viver – ou deveria dizer «com as quais já aprendeste a sofrer»?

Nem todas as pessoas compreendem esta forma de sentir – e não as posso condenar. Eu própria, muitas vezes, também não a compreendo. Quando esbarramos com alguém feito do mesmo sentir é ver-nos a dar pulinhos de felicidade pura. Encontramos alguém e lá vamos nós para mais uma viagem, vertiginosa, rumo ao para sempre. Vamos sem pensar, sem ponderar. Porque só assim é que vale, recordam-se? Depois, por norma, lá vem o «pica» perguntar pelo bilhete daquela viagem.

— Sr. Revisor, mas é preciso tirar bilhete para esta viagem?

— Todas as viagens têm um preço, menina.

E lá acabamos nós por pagar a tarifa máxima – como que uma espécie de multa que nos passam por não nos sabermos precaver. Saímos na paragem seguinte e ali ficamos. A lamber as feridas. As feridas e as quedas que uma viagem destas pode provocar. É nesse momento que olhamos para o lado e reparamos que sobramos nós. A carregar uma bagagem cada vez mais pesada – quase impossível de transportar para a próxima viagem. Parados no tempo e com todo o tempo, abrimos a mala e, incrédulos, olhamos para o seu conteúdo. O que fazemos questão, afinal, de trazer connosco? Amores sofridos? Mágoa? A certeza de que só sabemos amar assim? É isto que o destino tem reservado para nós? A certeza de que o próximo amor vai ser, exactamente, assim? Vamos tirando peça a peça, memória a memória, mágoa a mágoa e continuamos a procurar, desesperadamente, a peça mais importante daquela mala. E não a encontramos. Afinal, onde ficou o amor? Em que paragem saiu? Não deveria ser a peça comum em todas as viagens? Mas, ali, sentada contigo, percebes que há muito que a deixaste cair numa qualquer troca de estação. E, ali, sentada contigo, percebes que afinal transportas uma mala cheia de nada. Como é que é possível o «nada» ter tanto peso? E, ali, olhando para aquela mala, para aquela bagagem pesada, pegas num lápis e num papel e (re)começas assim:

«Já quis que o amor fosse louco. Já quis tanto que, de tanto querer, o amor me soube sempre a pouco. Já quis que o amor fosse insano. Já o achei sagrado e, de tão sagrado que era, depressa se tornou profano. Já quis amor que não me cabia no peito. Era maior que eu e isso não condiz com respeito. Já morei em amores de instantes. Já aluguei amores ausentes. Já tive amores distantes. Já deitei amor fora por não saber o que lhe fazer. É que o amor não consumido azeda, não se deve manter. Já transformei amor em raiva. Já perdoei um amor não correspondido. Já achei que, para ser amor, só valia se fosse amor sofrido. Já dei mais do que devia dar. Já me senti a mais amada. Já achei que tinha tudo e já vi tudo transformar-se em nada. Já morei sozinha no amor, por achar que amar bastava. Mas amar os outros, esquecendo-te de ti, é dar amor e ficar com nada.

Já quis que fosse tudo.

Tantas vezes, pedi que desse flor…

Hoje, tranquilamente, vos digo:

— Para mim, basta que seja Amor.»

(Levantou-se, deixou a mala naquela estação e foi ser feliz.)

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.