O texto mais pessoal que alguma vez escrevi

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Fotografia © Kira Ikonnikova | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Kira Ikonnikova | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Talvez seja este o texto mais difícil de escrever. Por ser meu. Por ser mesmo muito meu. Mas achei que o devia escrever neste mês, o último mês do ano, porque quero acreditar que vos consigo inspirar para o novo ano que se avizinha.

Não procurem palavras bonitas, nem formas simpáticas de dizer as coisas. Procurem a verdade das palavras, os sentimentos que fizeram parte de mim e transformem-nos em exemplos. É isso que pretendo.

Vamos falar de peso. Vamos falar de anorexia. Vamos falar de compulsão alimentar.

Há poucas semanas, em conversa, disseram-me que havia uma coach que trabalhava na área da nutrição e, sempre que os seus pacientes lhe diziam «quero emagrecer», ela dizia «então, vamos ser felizes?». E o texto podia terminar aqui, porque não são precisas mais palavras, mas eu quero contar-vos a minha história. Para aqueles que gostam de buscar os detalhes mais autobiográficos de quem escreve, então aqui têm: o texto mais pessoal que alguma vez escrevi.

Como qualquer rapariga normal, sempre tive as minhas inseguranças, as ditas «cenas de gaja». Essas inseguranças nunca tomaram conta de mim. Eu vivia à parte delas. Até ter entrado para a faculdade. Até me ter sentido, pela primeira vez, sozinha. Até ter questionado toda a minha vida e se realmente valia a pena todo o esforço e todo o dinheiro investido num curso, se valia a pena os mais de trezentos quilómetros a separar-me do meu porto seguro: a minha família. A verdade é que, sim, vale a pena, mas só percebi isso há poucos meses.

Há dois anos, estava a entrar numa anorexia sem saber. Eu sentia que me faltava algo, apesar de um namoro estável, de um bom desempenho na faculdade. Tinha tudo e sentia que me faltava tudo. Achei que deveria aumentar a minha autoestima. Comecei a praticar desporto com afinco e era realmente feliz a esfolar os músculos e a transpirar litros de água. Depois, chegou a alimentação saudável e conheci tudo o que podia conhecer sobre esta área. E isto podia ter sido, de facto, a receita da minha felicidade. Mas – e há sempre um mas – eu levei tudo isto ao extremo. Não deixei de comer, como a maioria das anorexias. Aliás, eu comia muito bem, mas a minha alimentação não compensava aquilo que investia no ginásio. O resultado foram quarenta e quatro quilos numa pessoa de um metro e sessenta e oito. Era um palito andante e era isso que as pessoas me faziam sentir na rua. Olhavam-me com desprezo e cheguei a ouvir comentários menos felizes. Tinha também pensamentos que, hoje, não me permitem reconhecer a pessoa em que me tinha tornado. Eu não podia comer uma folha de alface a mais do que aquilo que eu tinha estipulado, porque acreditava que isso me iria fazer engordar quilos. Eu deixava de me divertir e sair com amigos, porque não poderia comer aquilo que era suposto. Eu tratei mal algumas das pessoas que me eram mais próximas, porque não queria ouvir quando me diziam que eu estava magra demais. Tive pessoas do meu lado, que me compreenderam, apesar de todas as atitudes menos corretas que tive, mas foram mais aqueles que me criticaram. É mais fácil criticar, do que tentar perceber o que se passa realmente com a pessoa. E, hoje, as pessoas preferem o fácil.

Esta foi uma fase em que me sentia no controlo e eu precisava de ter o controlo na minha vida. Sentir, por um segundo, que me faltava o controlo da minha vida era ter a sensação de que o meu mundo caía todo por terra.

E caiu. Caiu no dia em que senti que perdi tudo. Perdi o amor. Perdi o rumo da minha vida. Perdi o controlo.

Quis comer para esquecer. Quis preencher-me, porque toda eu era um vazio. Não passaram muitos meses até passar dos quarenta e quatro a mais de oitenta quilos. Como cheguei a este peso? Muito simples. A esvaziar os armários da cozinha. A ir comprar comida, quando a que estava em casa acabava. A ir a bombas de gasolina à uma da manhã, porque os supermercados já estavam fechados e eu precisava de bolachas e chocolates para conseguir adormecer. Nem consigo acreditar que estou a escrever isto. É a primeira vez que tiro esta realidade de dentro de mim. Podem perguntar-me: «E porque é que não paraste? Bastava quereres e paravas de comer.» E os fumadores e os drogados? É só quererem e conseguem abandonar os seus vícios? Não, claro que não. E a comida não é diferente. Enquanto comia, sentia-me no controlo e era só isso que eu precisava: de controlo na minha vida. Por mais descontrolada que estivesse, aquele era o meu momento de controlo. Mas a minha autoestima baixou, como seria de esperar. Nunca me tinha visto com tanto peso. Nas ruas, o meu reflexo nas montras das lojas mostrava a minha realidade. Eu estava gorda. E por muito que, durante alguns dias, conseguisse fazer uma alimentação saudável como tão bem eu sabia fazer, havia outros em que não queria saber das tabletes de chocolate que já tinha comido. E, depois, os comentários. Outra vez os comentários maldosos das pessoas que preferem criticar, sem antes procurarem compreender. Das pessoas que gostam de dizer «estás mais gordinha» porque devem pensar que eu não tenho espelhos em casa. E, aliás, eu precisava de ser relembrada disso, todos os dias, porque eu nem estava a sentir-me horrivelmente mal comigo.

Foi este o clique da minha vida. Não, eu não emagreci e fui feliz para sempre. Eu ainda tenho, mais ou menos, esse peso, mas não sou a mesma pessoa. Li, uma vez que o sucesso exterior depende do sucesso interior e eu percebi que a minha relação com a comida era o sintoma, a prova de que algo estava mal comigo, com a minha mente.

Os últimos meses têm sido uma busca incessante do meu eu, tem sido uma busca incessante de uma mudança que me sinto a fazer. Escolhi este mês para escrever este texto, porque me sinto a fechar um ciclo. Senti que, durante o último ano, me surgiram momentos, pessoas e oportunidades em catadupa que serviram para me testar. Surgiram desafios, surgiram pessoas com esses desafios, surgiram oportunidades, surgiram emoções com essas oportunidades. E, depois, surgiu o universo que parece que conspira sempre contra nós, mas, no fundo, faz tudo a nosso favor. E eu percebi. Percebi que eu tinha de estar a mais de trezentos quilómetros de casa para me confrontar comigo mesma e com a realidade de estar sozinha. Percebi que eu tinha de sentir este turbilhão de emoções para aprender a falar delas, porque eu sempre escondi emoções, sempre escondi aquilo que realmente sinto. Eu errei muito, muito mesmo e, hoje, percebi que tive de errar com determinadas pessoas para aprender a lidar com os outros, para aprender a amar os outros.

Ainda não terminei a minha revolução interior, se é que algum dia ela irá acontecer, mas também não me concentro muito nos resultados. Porque, quanto mais te concentras nos resultados e pensas nos prazos que estabeleces a ti próprio para os atingir, mais te desvias do teu caminho. É que o importante não é o resultado final. É o percurso que fazes até lá.

Esta foi a primeira vez que abri assim o meu coração. Porque vos quero inspirar a fazerem as vossas revoluções interiores. Porque acredito num mundo muito melhor, se as pessoas forem mais humanas e menos críticas.

E, para terminar, quero que penses apenas nesta frase e que ela ecoe na tua mente sempre que te sentires triste e sem vontade de lutar: «Como é que podes, verdadeiramente, sentir a alegria do cume da montanha, sem visitares primeiro o fundo do vale?»

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.