O resto… O resto é treta!

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Fotografia © César de Silva | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © César de Silva | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

«Nunca ninguém nos disse que isto seria um desafio fácil, pois não?»

«Realmente, não. Nunca nos informaram sobre isto… Sobre os prós e os contras – sobre o reconhecer a minha própria pessoa, não é?»

Olho para mim próprio, encarando o meu reflexo neste espelho, pregado na parede. O que vejo? Não sei… Nasci perdido neste mundo. Se me perguntarem os meus objetivos, provavelmente, irei responder que não sei. Vá, sei, mas e se não conseguir? É isto que me incomoda: eu costumo querer tanto, mas tanto alguma coisa que, momentos mais tarde, perco logo a vontade – sou um desistente. Pelo menos, quando me olho ao espelho, é isto que vejo. Um vazio – um corpo oco e sem alma. Sem força para continuar e que só e apenas vai percorrendo de mão dada com o tempo. Deixo-me ir com a corrente. São mais os momentos de desistência do que os momentos de frontalidade com as barreiras que a vida me traz.

«Sou um desistente, não concordas, César?»

Assinto com a nuca diante do espelho. Respondo-me a mim mesmo. E olho para baixo.

«Eu sei, César, largámos tudo e viemos para cá, para outro país… Será isso ser-se desistente?»

Boa pergunta. Emigrar não é fácil. Deixar a família também não, nem os amigos… Nem a nossa zona de conforto. De certa forma, acho que o meu subconsciente quis pôr-me à prova com toda a sua força. Quis testar-me. Eu quis testar-me.

Porque serei um grande desistente de tanta coisa e, ao mesmo tempo, corajoso noutras?

Sempre consegui o que queria sem nunca ter sido mimado. Nunca fui problemático. De certa forma, aos olhos de uns, sou bastante reservado, mas aos de outros sou demasiado extrovertido.

Os meus pensamentos já se misturam – já me torno confuso. Não consigo encarar-me ao espelho. Não consigo encarar o olhar de alguém. Será que não sou sério nas palavras? Será que duvido demais de mim mesmo? Sim. Sou desistente e inseguro, mas corajoso.

Aperto a minha mão no lavatório, enraivecido.

«Tenho que mudar!», digo para mim próprio.

Olhos que estavam fechados. Olhos que já estão abertos… E vejo-me a mim diante de mim. Eu sou tu, mas desse lado. Vamos dividir-nos?

Entrego todos os meus defeitos para esse lado. Para o lado de lá deste mísero espelho e fico apenas com as qualidades deste lado.

«O que os outros acham de nós, César?», fito o espelho.

Provavelmente, tenho que pensar menos. Tenho que me deixar de deitar abaixo – já tenho quem mo tenta fazer constantemente. No entanto, rio-me cá em cima.

Sim. Eu sou corajoso. Tenho um coração do tamanho do mundo! Ajudo quem tiver que ajudar sem pedir algo em troca, tal como costumam fazer. Eu não sou assim. Ajudar é fazer de coração, sem pagos ou custos. Eu tenho bom coração.

Então, por favor, pensamentos, não me consumam a mente com os meus defeitos. Entrega-me as qualidades.

Por acaso, já as vejo — agora que penso…

Sou corajoso. Tenho bom coração. Sou amigo, honesto, independente, generoso… Educado! Não sou ganancioso, rancoroso, egocêntrico, cobarde, mas, talvez, sou um mártir para comigo…

Não importa se estou em luta, entre mim e o meu reflexo. O que importa é manter a bondade para com os outros e dar-lhes o amor. Distribuir a bondade aos meus mais próximos.

O resto… o resto é treta!

«Agora, és um reflexo aprisionado com as minhas más qualidades. És um reflexo da treta.»

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.