Um ménage que deveria ser à trois

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Estava eu sentada ao balcão, como em tantas outras noites. Todas as semanas voltava àquele bar. Bebia até me embebedar. Observava as pessoas. Refletia sobre a minha vida. E ia embora, quando já tinha esquecido os meus problemas. Mas naquela noite foi diferente.

Como estava a contar… Estava eu sentada ao balcão, quando observo uma rapariga a dançar. Estava com o seu namorado e mais um grupo de amigos. Não consegui desviar o olhar dela. Não sei se pela forma como dançava ou se pela forma como sorria. Admirei cada pormenor, cada detalhe. A forma como mordia o lábio, como movimentava cada parte do seu corpo, como sorria de forma marota. Estava vestida com umas calças de ganga justas ao corpo, uma blusa branca que deixava transparecer o sutiã e sapatos de salto alto vermelhos. Tinha uma maquilhagem suave mas os lábios estavam perfeitamente pintados de vermelho.

Até que reparou que eu a admirava fixamente. E, então, em jogos de olhares, também ela não deixou de olhar. Com aquele olhar doce e, ao mesmo tempo, penetrante. Estivemos neste jogo algum tempo. Comecei a ficar com o coração acelerado, a sentir calor, e até a ficar excitada.

Num momento em que foi à casa de banho, segui-a. Antes de ela fechar a porta, cruzámos o olhar e, de repente, puxou-me para dentro da casa de banho. Agarrou-me e beijámo-nos sem respirar, sofregamente, com paixão. Borrámos o seu batom vermelho. Quando finalmente abrimos os olhos, reparei no verde intenso do seu olhar. Retocou o batom e saiu. Pouco depois, saí a seguir a ela.

No bar, estava a falar ao ouvido do namorado. Comecei a ficar nervosa. Vestiram os casacos, despediram-se dos amigos e iam embora. Não sem, antes, discretamente, ela me acenar para a seguir. Segui-os. Entrei no carro com eles. E fui até à casa deles.

E aí, sem pronunciar uma única palavra, eu e ela começámos a beijar-nos, a acariciar-nos, a despir-nos, a explorar os nossos corpos até ao mais ínfimo pormenor. O namorado observava-nos. Continuámos até explodir de prazer. Depois, observei-a com o namorado. Enquanto o namorado a penetrava, eu continuava a beijá-la. Eu nunca estivera tão excitada em toda a minha vida.

No dia seguinte, acordei com dor de cabeça. Tinha bebido demasiado. Não estava a acreditar no que tinha acontecido, mas a imagem daquela rapariga não me saía da cabeça. Ela era linda. Nunca me tinha interessado por uma rapariga. Nunca tinha beijado uma rapariga. Mas aquela noite tinha-me marcado.

Nunca mais os voltei a ver. E nunca mais me interessei por outra rapariga. Foi uma experiência pontual. Depois disto, tive outros namorados.

Um dia, em conversa com uma das minhas melhores amigas, sobre homossexualidade, contei-lhe que tinha tido uma experiência lésbica. Ambas tínhamos amigos homossexuais. E, para mim, esta era, de todas as minhas amigas, a mais despreconceituosa. Falávamos de tudo, sem julgamentos.

Mais tarde, soube, por outra amiga em comum, que esta, além de não ter guardado segredo sobre a minha experiência, me colocou um rótulo de lésbica. Não vou entrar em pormenores sobre a tristeza e desilusão que me invadiu relativamente a esta amizade.

O que quero discutir aqui são outras questões. Haverá mais pessoas com curiosidade de estar com outras pessoas do mesmo sexo? Não o experimentam por vergonha? Pelo medo de serem rotulados de homossexuais? Será, aliás, válido ser-se apelidado de homossexual por causa de uma experiência pontual? Como pode outra pessoa chamar-me de lésbica, se eu própria me estou a conhecer? Será que foi um caso pontual ou, um dia, irei ser feliz com uma rapariga? Serei bissexual? Ou, antes, uma heterossexual apenas curiosa?

A mim não me interessam os rótulos. Nem me interessa descodificar ao pormenor o que aconteceu. Mas quantos de nós são infelizes, por medo de assumirem a sua verdadeira sexualidade? Tudo por causa do que nos é imposto desde que nascemos. Desconheço o futuro. Sei que, em qualquer caso, tentarei ser feliz, independentemente de ideias pré concebidas, julgamentos ou preconceitos da sociedade. E penso que cada pessoa deveria, igualmente, lutar pela sua felicidade.

PS: Escrevi este texto na primeira pessoa para que, agora, possas avaliar a tua capacidade de julgamento dos outros. Respeitas a vida das outras pessoas?

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.