
Nessa manhã, Jorge estava em silêncio, mordaz, no quarto, mas o seu pensamento não. De repente:
— Olá! Quero brincar! — Surgiu Pedrinho a interpelar Jorge.
— Não posso! — Retorquiu Jorge à criança.
— Quero ver o Raul. Veste-te! — Abordou-o Pedrinho.
— Não, deixa-me. — Reagiu Jorge, suspirando.
Clara ia sair. Erguia a mala no ombro. Pegava nas chaves. Do corredor via o quarto. Aproximou-se, preocupada, e falou a Jorge:
— Com quem falas, amor? — Perguntou Clara.
— Conta-lhe… Os balões. — Interrompeu Pedrinho o pensamento de Jorge.
— Ninguém, Clara.
— Vou vestir-me. Vou passear. — Respondeu-lhe Jorge.
— Não vamos brincar? O Raul? — Dirigia-se novamente Pedrinho.
— Fico contente. Voltas a sair de casa, depois de tudo! — Clara sorria, tremia, queria chorar.
Clara saiu. A porta gemeu. Um adeus surgiu, voou. Jorge vestiu-se, engoliu a torrada, ajeitou a camisa, apertou os sapatos, saiu. A porta gemeu. Um adeus não voou.
— Sobe a rua! — Pedrinho estava elétrico.
Jorge ignorava Pedrinho, mas subia a rua de sua casa. Ao longe, avistava Raul na praça, onde enchia balões. Tinha múltiplas cores, rosto pintado, um nariz vermelho. Jorge dirigia-se a Raul. Este acenava-lhe.
— O Raul, os balões! Quero o cão. Posso? — Pedrinho estava excitado, mas Jorge não falava.
— Bom dia, senhor Jorge. Hoje, que balão vai escolher? — Sorria Raul. Como palhaço que era, sorria.
— Dá-me o cão, Raul. Hoje, quero o cão. — O “palhaço”, agitando, deu o balão. Jorge pagou.
— Tenha um bom dia, senhor Jorge! — Despedia-se Raul. Como palhaço que era, sorria.
— Obrigado, papá! — Agradecia Pedrinho, mas o pai ignorava.
Jorge caminhou, cruzou a praça. Entrou no cemitério. Saiu do cemitério. O balão-cão ficava na campa de Pedrinho. A criança sorria, mas Jorge chorava… Já não ignorava.




