Olha bem para ti

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518_raquelferreiraOlha bem para ti. Olha bem para aquilo em que te tornaste. Ainda achas que és uma fraca, uma desistente? Ainda achas que o mundo está todo contra ti, que o destino te trocou as voltas? Diz-me com sinceridade se a vida é tão preta e branca como queres acreditar? Fazes mal a ti própria, menosprezas a tua essência e, caramba, tu és tão especial. O teu coração é tão genuíno. Porque é que teimas em colocar-lhe um egoísmo que não te define?

Eu conheço a tua mágoa. Eu sei que te culpas por já não serem um do outro, por já não saberes o que é acordar com um beijo capaz de parar o tempo, mas chega, Raquel. Chega! Erraste, foste egoísta, foste insensível e depois? Bateste no fundo, não bateste? Arrependeste-te, não arrependeste? O teu coração ainda dói, não dói? Isso é a tua lição, é a tua aprendizagem. E isso fez de ti tão forte, já viste bem? És tão má contigo que ainda não foste capaz de compreender como está tão bem reconstruída a tua vida. Estás cega, porque te queres convencer que não és merecedora de felicidade. Deixa-me que te diga que és uma verdadeira idiota. Ainda não reparaste que os teus erros foram os teus melhores professores? Ainda não reparaste que precisavas de uma queda destas para poderes, agora, construir um castelo?

Eu conheço o teu orgulho, conheço a tua dificuldade em dar a conhecer aos outros as tuas emoções e fragilidades, mas não precisas de ter vergonha de mostrares o menos bonito da tua vida, de mostrares que não és perfeita. Que chata irias ser se o fosses. O que os outros não sabem é que até o menos bonito da tua vida foi essencial para aquilo que és hoje. Para a tua força, para a tua vontade inesgotável de explorar o desconhecido, de fazer das bordas dos precipícios a tua zona de conforto. E que feliz que tu és na borda desses precipícios. Que feliz que és a saber que és diferente, a saber que lutas por aquilo em que acreditas sem medo que te julguem pela extravagância dos teus pensamentos. Que feliz que és em saber que pensas além do que é suposto, além dos limites que os outros teimam em te impor. Não foste feita para cumprir limites. Foste feita para os desafiar.

É verdade! Nasceste numa aldeia, ainda por cima, no lugar mais baixo dessa aldeia, num lugar onde só vês serras e mais serras, onde só existem três casas, e depois? Eu lembro-me de como, em pequena e ainda com laços cor de rosa nas tranças, sonhavas que, um dia, irias ver o que havia depois da serra. E, agora, olha bem para ti. Todos os dias vês além da serra e tu podias não o fazer. Tu podias ter ficado pelo suposto, pelo que seria mais cómodo, pela segurança que é estares atrás das tantas árvores que te separam do desconhecido. Mas não. Tu desafias-te, todos os dias, a subir, a explorar o que ainda não pudeste ver, a ser cada dia mais e melhor. Eu sei que tu acreditas que, ainda que vás, não consegues nunca alcançar o que queres. E tu queres ser tanto. Em ti, cabem tantos sonhos. Em ti, cabem tantos desejos. Em ti, cabe tanta verdade e tu não queres ver isso. Tens medo de cair outra vez. Tens medo de falhar. Mas quem não tem? Quem não tem medo de arriscar? Quem não tem medo das consequências?

Mas, porra, Raquel, tu tens quem te ampare a queda, tu tens quem te levante, tu tens quem não te julgue, quem está ao teu lado. Não consegues ver que as tuas pessoas gostam de ti tal e qual tu és, com todos os teus defeitos? Culpas-te porque, por vezes, não lhes mostras que as amas com todas as forças do teu coração, não lhes telefonas constantemente, não lhes dizes que as amas, mas é a tua forma de amar. Não é menos bonita por isso. É a tua. Não tenhas medo, não tenhas medo dos desalinhos, não tenhas medo das névoas que te possam toldar a visão, porque tu sabes que até isso fará de ti cada vez mais única e especial.

Olha bem para ti. Mas sem os artifícios que teimas em usar para denegrir a tua verdadeira essência. Olha bem para o interior do teu coração. Sente-lhe o seu pulsar. Sente a força dos seus batimentos. Sente-lhe a verdade de que é feito. Tu és assim. Mesmo com vinte e dois anos tu és assim. Mesmo com vinte e dois anos tu és força e medo, és alegria e lágrimas numa só pessoa. És tudo isto num coração de verdade.

Olha bem para ti. Os teus caminhos não têm névoas que tu não consigas atravessar. Ainda queres desistir de ti?

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.