«Não se deseja a morte a ninguém, Carina»

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Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Carina, sabes que a vida te tornou naquilo que és hoje. No que tens de mau, mas também de bom. Muitas vezes, menosprezas-te. Achas que não tens valor, que não és boa o suficiente.

Mas lembras-te de teres sido gozada na escola? Chamavam-te caixa de óculos… Não foi por isso que deixaste de ser boa aluna e que prosseguiste os teus estudos. Isso só te fortaleceu, só te ajudou a compreender e a estar do lado dos mais fracos. Tornaste-te agressiva, sim, mas sempre em nome da justiça.

Sabes todos aqueles momentos que, em criança, desejavas ter para brincar? Mas não podias porque tinhas que limpar a casa, estender a roupa, fazer o jantar. Ou quando ao domingo te tiravam da cama para ir apanhar lenha? Tu que gostas tanto de dormir… Foram todas essas experiências que te tornaram a mulher independente, trabalhadora, desenrascada que és hoje.

Lembras-te do teu avô ter abusado de ti? Ficaste feliz com a sua morte. Não se deseja a morte a ninguém, Carina. Tu sabes. Ficaste com raiva e com nojo dos homens durante muitos anos. Sofreste muito. Sofreste durante muitos anos. Mas depois também aprendeste a perdoar, a amar, a reconhecer que não se pode culpar os outros por algo que te fizeram.

Sabes todas as vezes em que assististe aos teus pais a discutir, em que te ias esconder debaixo das mantas a chorar? Estas discussões tornaram-te uma pessoa problemática nos teus relacionamentos. Refletias neles aquilo que tinhas vivenciado no teu crescimento. Só sabias ser assim. Relacionamentos, esses, em que te envolveste, um após o outro, por carência. Por causa da falta de autoconfiança, que te foram alimentando ao longo dos anos. Envolvias-te para que cada uma dessas pessoas te valorizasse, te amasse. Já que tu, Carina, não eras capaz. Sabes o que conseguiste com isso? Sofrer ainda mais, porque eles refletiam o teu comportamento para contigo. Felizmente, hoje tens essa consciência e sabes bem aquilo que queres na tua vida. Tornaste-te decisiva e forte. Aprendeste a valorizar-te e a amar-te.

Lembras-te de todas as vezes que foste expulsa das aulas, por reivindicares por ti e por todos da turma? Foi essa tua capacidade de lutar por aquilo em que acreditavas que faz com que, ainda hoje, nunca desistas dos teus objetivos.

Sabes quando descobriram o tumor da tua irmã? Tu nem querias acreditar. Mas viste nela, ano após ano, um exemplo de força e de coragem. Ainda hoje ela goza contigo por não gostares de fazer análises. Aquela irmã que passou a infância a ser problemática, que te fazia arrancar cabelos, é hoje uma inspiração. Recorda-te, a cada dia, que não tens nada com que te queixar.

E a outra irmã que saiu de casa e ficou grávida aos 17 anos? Que te deu sobrinhos maravilhosos, que tu tanto adoras. Valeu de alguma coisa julgares a tua irmã, Carina?

Lembras-te da morte do teu pai? Tornou-te uma pessoa fria, sem amor à vida, depressiva. Ficaste cega de ódio, de raiva, sem esperança. Hoje, aprendeste que tens que valorizar as pessoas, enquanto as tens. Dizes mais vezes que amas. Abraças mais. Valorizas mais cada momento em família.

Essa maldita depressão que tiveste, que quase te levou à morte, Carina… Ficaste mais sensível, mais emotiva, mais frágil. Mas conseguiste compreender o porquê de um dia a tua mãe ter tentado o mesmo. Conseguiste perceber que ninguém controla uma depressão, que ninguém controla aquilo que sente e que pensa quando está assim. Não tivesses passado pelo mesmo, talvez hoje ainda não terias perdoado a tua mãe. Não terias perdoado que, em determinado momento, te quis abandonar, a ti e à tua família. Mesmo que não tenhas orgulho por te teres deixado abater por essa depressão, deves ter orgulho pela força com que a ultrapassaste. Hoje, essa experiência serve para te ajudar a motivar pessoas, que estão a passar pelo mesmo, a ultrapassar esse sofrimento.

Sabes que tudo aquilo que alcançaste foi resultado do teu trabalho. O teu curso, a tua carta de condução, o teu carro, a tua máquina fotográfica… Tantas vezes que desejaste ter pais ricos. Mas também foi essa dedicação, esse esforço, que te tem feito valorizar tudo o que alcançaste. Que te faz valorizar cada dia de trabalho a fazer aquilo que amas. Sabes também que foram todas essas experiências que te tornaram exigente e perfecionista contigo e com os outros. Sabias, por exemplo, que não podias chumbar nenhum ano, que não podias falhar no exame de condução. Não tinhas nem mais um cêntimo para concretizar esses objetivos. Mas não podes exigir aos outros que sejam como tu. Continua a ser profissional que és. Não duvides das tuas capacidades. E serás sempre bem-sucedida.

Tornaste-te também egoísta, Carina. Como lutaste tanto para teres o que tens, és egoísta com as tuas coisas. Mesmo que não sejam coisas caras, para ti têm muito valor. Uma vez até te chateaste com uma amiga, porque deixou cair vinho numas botas novas, que andavas para comprar há muito tempo. Calma. São só bens materiais.

Carina, sabes que todos estes acontecimentos te tornaram a pessoa forte, corajosa, ousada, destemida, independente, trabalhadora e inteligente que és hoje. Mas também sabes que foi aquilo que viveste que te tornou bruta e frontal na forma de falar; mal-humorada; às vezes, agressiva; crítica; perfecionista; pessimista e egoísta. Mas o principal é que tens consciência disso e tentas melhorar dia após dia. E, hoje, mesmo sabendo-te assim, tens pessoas que te adoram. Porque o teu brilho ilumina os que te rodeiam. E porque consegues transformar cada lágrima num sorriso, cada dor numa aprendizagem. Porque, passo a passo, lutas por aquilo em que acreditas, pelos teus objetivos. Porque, no meio da adversidade, vais concretizando os teus sonhos. Porque, apesar do passado, lutas por viver cada dia com alegria.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.