«Já estou farta de chorar!» – o desafio!

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515_lauraazevedo«Já estou farta de chorar!» Foi assim, com estas palavras, que uma das desafiadas deu por terminada a sua participação no desafio de escrita criativa, que lancei aqui, no dia 4 de dezembro. O tema não era fácil. A ansiedade, dizem, é sempre maior nestes desafios em direto: porque não sabem sobre que tema vão escrever, porque o tempo é cronometrado por mim, porque não podem repensar e mudar de abordagem a meio do caminho. Não há tempo para nada disso.

Só quando chegam ao chat de grupo, na hora e no dia marcados, é que lhes apresento o tema. E os temas dos desafios em direto são quase sempre assim, dos que desnorteiam. E, embora tenha o cuidado de, em quase todos os que lanço, sugerir temas desconcertantes, são estes, em direto, que os deixam mais nervosos. O primeiro foi sobre o João — o João que, na verdade, toda a vida se sentia Joana. Este? Este pretendia que olhassem para dentro de si, para o bom e para o mau de que são feitos, e que tivessem esta espécie de diálogo consigo próprios. Sem meias palavras.

Porque todos temos caraterísticas de que nos orgulhamos e outras de que não. Porque, na maioria dos dias, não pensamos nisso. Mas há outros em que perdemos a calma connosco e em que temos, de repente, rasgos de frontalidade em que nos dizemos, sem meias palavras, as verdades — por mais duras que elas sejam, com tanto discernimento que até parece que nos estamos a ver de fora. Mas, nesses dias, somos também movidos por esta espécie de compaixão que sentimos por nós próprios: em que nos perdoamos as falhas, em que assumimos os erros e em que, apesar de tudo, nos orgulhamos do tanto que temos sido até aqui.

O tema era este e foi assim mesmo que o introduzi. Do outro lado, um prolongado silêncio. Quase os ouvi a engolirem em seco. E, de repente, o silêncio foi quebrado: «Foda-se! Já me lixei. É que eu sei falar dos meus defeitos, mas qualidades nem vê-las!» E outra perguntava: «Oh, Laura! Logo hoje este tema?» Tinha tido a pontaria de acertar em cheio num dia de neura — e esses são os mais tramados, e tão a propósito deste tema. Mas também houve quem não tivesse perdido tempo a reagir e tivesse metido as mãos à obra. Pelo caminho, uns faziam pausas para virem ao chat descomprimir com umas piadas; outros trocavam palavras de força e incentivo; outros choravam e outros, ainda, diziam: «Já apaguei mil vezes e já recomecei outras tantas.» E o tempo a passar. E a hora e meia chegou ao fim. Era meia-noite quando a campainha tocou. E, no meio de tantas piadas e de tantas emoções ao rubro, comigo ali, a ser a desafiadora daquele momento intenso de introspeção, houve momentos em que só me apetecia rir das piadas que eles diziam e outras em que ficava com o coração nas mãos com as palavras apreensivas que deixavam escapar.

Li todos os textos ali mesmo, à meia-noite. Não consegui esperar pela manhã seguinte, pela segunda-feira. Fiquei presa a cada uma das palavras. Vivi, ali, cada uma destas conversas sérias que tiveram consigo próprios. Sou, de certa forma, ao estar deste lado, uma enorme privilegiada por ser a primeira que os lê, a primeira confidente desta escrita — é assim que me sinto, é assim que eles me fazem sentir. Emocionei-me com alguns textos. Com outros, embora sérios, sorri — pela dureza que encerram. No fundo, enterneceu-me esta inevitabilidade que nos assiste de exigirmos tanto de nós próprios, de não nos acharmos suficientes, de acharmos que poderíamos ter feito sempre mais e melhor. Por outro lado, quase fiquei, por segundos, sem reação ao ler determinadas confidências aqui deixadas.

Costuma haver sempre um vencedor e só o texto do vencedor é publicado. Desta vez, todos são vencedores — pela coragem e pela ousadia de terem aceite este desafio. E de o terem aceite desta forma: com palavras que me fazem sentir orgulho nesta plataforma, nestas pessoas que aqui estão comigo; com palavras que fazem a diferença e que são a prova de que não é necessário ser-se perfeito para se ser, genuinamente, bonito.

Nos próximos dias, os textos deste desafio vão sendo publicados aqui. Basta carregares neste link para acederes a todos. E já podes ler o primeiro!

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LAURA ALMEIDA AZEVEDO, a desafiadora
36 anos. Uma dose saudável de loucura. Gosto por tudo o que é novo, diferente, ousado, criativo. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro e do blogue «Apetece(s)-me». Incapaz de viver sem a luz do sol, mas completamente rendida ao silêncio da madrugada. Viciada em música, chocolates e varandas. Fascinada por cidades, pessoas e emoções. Nunca diz que não a uma discussão construtiva: afinal, é a conversar que as pessoas se entendem. Em miúda, o seu jogo preferido era o Jogo da Verdade.