Era assim que o nosso amor vivia

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Fotografia © Veronika Balasyuk | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Veronika Balasyuk | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Olhei-te e estavas com cara de domingo. Havia a magia da preguiça no teu rosto. Vi no teu sorriso um convite. Convidavas-me para te seguir. E o teu olhar maroto não me queria dizer qual era o destino. Apenas me dizias uma palavra «vem».

Olhei-te e senti a tentação que te corria nas veias. Querias-me sem tempo. Querias-me com o tempo que só ao domingo poderias ter. Sem horários. Só nós e o nosso amor. Sem a tua agenda. Sem os meus compromissos. Sem telefonemas, sem mensagens. Querias levar-me para um dos teus paraísos, para podermos dar asas ao nosso amor.

Olhei-te e percebi que era assim que o nosso amor vivia. Dependente do tempo. O maldito tempo que nos empurrava para as obrigações do mundo real. Tantas coisas e nós sem tempo para o mais importante — este amor que nos unia. O amor que, todos os dias, deixávamos para depois. Para quando tivéssemos tempo para o viver.

Olhei-te e não tive dúvidas. Estava escrito na tua testa que me amavas. Mas pergunto-me, do fundo da minha alma, até quando este amor vai sobreviver. Até quando podemos adiar as nossas emoções. Até quando podemos retardar o desejo que, por vezes, nos visita. Até quando vamos enganar os nossos corações, exigindo-lhe que esperem pelo momento mais oportuno.

Afinal, eu amo-te todos os dias. E tu também me amas a mim. Então, porque roubamos tempo ao nosso amor para o gastar com tudo o que poderia esperar? Porque aceitamos ser reféns desta prisão, que é viver a correr sem tempo para viver? E se, um dia, esta flor secar? Sim, se ela secar, por falta de a termos regado! Por falta de tempo para a tratar. Que vamos nós dizer a um coração que sempre teve que esperar? Vamos dizer-lhe que não é importante amar? Ou vamos chorar pelo tempo em que não nos amamos?

Sim, hoje, tu tens cara de domingo. O único dia da semana em que ainda tens tempo para mim. E queres aproveitar para me levar até ao paraíso. Vejo a tentação estampada no teu olhar. Mas o teu sorriso também me diz que pode ser só obrigação. A obrigação de me mostrares que me continuas a amar.

E, sabes, o amor não se alimenta de obrigações. Ele é doido por emoções. E, hoje, que é domingo, eu pergunto-te onde pairam as nossas emoções. Quando foi a última vez que me surpreendeste. Sabes, acho que o meu amor está doente. Já não desperta com esse olhar maroto. Está cansado. A semana foi longa e ele precisa de descansar. Vamos deixar para o próximo domingo. Pode ser que, então, ele lhe apeteça brincar contigo.

Hoje é domingo e eu amei-te a semana inteira. Esperei a cada dia que passava por um minuto da tua atenção. Espreitei na tua agenda, sempre muito ocupada, e não havia lugar para mim. E, hoje, sou eu que quero dar um dia de férias a este amor. Hoje é domingo e eu não tenho tempo disponível para te amar.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.