
Eu vivo, literalmente, entre viagens. A minha rotina diária resume-se a uma série de horas de voo entre o ir e o voltar a casa. O voltar a casa. A uma casa que não era minha até há pouco tempo atrás. Uma casa que, tantas vezes, parece escorregar-me por entre os dedos por não ser – realmente – a minha casa. Mas que me acolhe como se eu tivesse vivido sempre aqui.
Não vivo só entre viagens: vivo também por entre as viagens. Nos sorrisos, nas gargalhadas, nas frustrações e nos desabafos de quem partilha as viagens comigo. De quem é, no fundo, igual a mim. De quem volta, todos os dias, a casa com mil sonhos por viver e com a ânsia de que as próximas horas no ar passem a voar. É sempre assim: espera-se que a descolagem e a aterragem fiquem cada vez mais perto uma da outra.
E, depois, toca-se o chão para enfrentar o profundo vazio de já não se saber muito bem ao que se pertence: ao ir, ao voltar ou ao ficar. Talvez não pertença a nenhum dos três. Ou talvez pertença aos três com a mesma intensidade. E acho que é, exatamente, por isso que aprendi a viver entre viagens, que não vejo as semanas pelo calendário e que não vivo os meses com um princípio e um fim.
Vivo entre as viagens que faço todos os dias e vivo para as viagens que marco, e sem as quais o passar do tempo seria um tic-tac constante e assustador. Ainda não sei se é um modo de vida, mas é um modo de sobrevivência. É – definitivamente – o meu modo de sobrevivência.




