Carta ao avô que nunca conheci

4401
Fotografia © Lesly B. Juarez | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Lesly B. Juarez | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sempre me disseram que as piores saudades são as saudades daquilo que nunca foi. São saudades que nos doem de forma especial no coração, que deixam a sensação de um espaço em branco, jamais preenchido.

É essa saudade que sinto por ti. A saudade de tudo o que poderíamos ter sido, mas não fomos. Porque eu nasci e tu partiste uma semana depois. Podias ter esperado mais uns anos e, hoje, eu podia recordar-te. Mas a morte não escolhe momentos. Escolhe pessoas. E escolheu-te a ti.

Tudo o que sei de ti é o que a mãe me conta e é tão pouco para saciar esta saudade. Sei que me pegaste ao colo e temos uma foto a retratar esse momento. A nossa única foto. A minha única lembrança de ti. E eu era tão pequenina, tão indefesa e ainda assim sinto que as tuas mãos e o teu colo me protegiam.

Gostava de ter falado contigo, gostava que tivesses acompanhado o meu crescimento e gostava de ter aprendido a vida contigo. Tenho a certeza de que eras especial — é aquilo que retiro das palavras da mãe quando me fala de ti. Eras especial à tua maneira, ao teu jeito. Trabalhavas a terra com amor e fazias dela o teu sustento e da tua família. És um motivo de orgulho e o que eu gostava de to poder dizer.

Gostava que pudesses ver naquilo que me tornei, naquilo que o meu irmão se tornou. A ele nem ao colo pudeste pegar. Gostava de saber o que dirias de todas as decisões que tomei na minha vida. Segui o coração em todas elas e nunca me arrependi dos caminhos que escolhi.

Tivemos a avó, é certo. Ela acompanhou o meu crescimento e ao meu irmão pode pegar ao colo. E eu aprendi muito com ela. Aprendi tudo o que ela me pôde ensinar. E ainda hoje recordo o cheiro a broa caseira que só ela fazia e o bom que era comer broa com uvas na época das vindimas.

Ela foi uma prolongação de ti, embora não me recorde de, em algum momento, ela ter falado de ti, do teu nome. Talvez ainda lhe doesse a tua ausência. Talvez ainda lhe doesse o coração ao pronunciar o teu nome. Agora, faz-te companhia. Agora, podem viver juntos a eternidade. E será nessa eternidade que, um dia, te vou encontrar e, mesmo que já tenha rugas e cabelos brancos, vou querer sentar-me no teu colo como da primeira vez que nos conhecemos e dizer-te: «Que bom que é o teu colo, avô.»

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorQualquer coisa de extraordinário
Próximo artigoEntre viagens
RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.