Dias felizes

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Fotografia © Clem Onojeghuo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Clem Onojeghuo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Já se ouvia o homem da lotaria a cantar pela rua, como se vendesse felicidade. Era mais um dia normal da nossa vida. Quando ouvia o homem da lotaria, já tinhas saído há uns minutos de casa com um beijo cuidado. Sabia que só tinha mais cinco minutos de cama.

Levantava-me e seguia caminho, com o pequeno almoço na mão. O senhor da porta ao lado, que vendia carteiras, cumprimentava-me todos os dias. «Bom dia, menina», como se eu fosse da família.

O caminho até ao meu destino era recheado de cheiros que nunca mais tive o prazer de sentir. Ao chegar à praça central, sentia o cheiro a castanha assada e a senhora de sempre (que já podia estar sossegada em casa) teimava em vender as castanhas, todos os dias, fazendo uma fila interminável.

O dia passava como tantos outros, entre livros e cadernos, almoços e recados.

Os nossos caminhos cruzavam-se, ao final do dia, com um jantar improvisado, umas compras de última hora no super-mercado ou um passeio junto ao rio. Nunca mais se repetiram proezas daquelas.

Do outro lado do rio, na ponte dos cadeados, faziam-se promessas infinitas.

O dia terminava por casa, o nosso recanto imaculado, onde não cabia o frio nem o desprezo. Terminava com programas, séries e gargalhadas de acordar os vizinhos.

Sonhávamos com o dia seguinte e com a nossa infinita existência.

Cidade da minha vida, só queria morar em ti para sempre.

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RITA GONÇALVES, a filósofa
25 anos. Mais 5 do que 20. Formada em Filosofia pós-graduada em Marketing e Comunicação Digital. A sua formação é tão distinta como os seus talentos. É muito mais sentir do que ser, uma Balança numa constante procura pelo equilíbrio. Tem no silêncio a sua melhor arma contra a ignorância do mundo. Tem nas palavras escritas a chave para a sua melhor expressão. Tanto prefere o sol, o mar e alguém para amar, como o inverno, a lareira e um chocolate à cabeceira. A Rita é mistério, pensamento e amor.