Qualquer coisa de extraordinário

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Fotografia © Rebecca Ashley | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Rebecca Ashley | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Acontece qualquer coisa de extraordinário quando o nosso coração acomoda alguém dentro de si. Pergunto-me se ele, o coração, não terá vida própria. Uma vontade independente da nossa. Enquanto questionamos, duvidamos, criamos ou inventamos obstáculos, ele, mais sábio do que nós, sabe exatamente o que fazer. Nós é que ainda temos dificuldade em ler o seu ritmo, de interpretar as linhas de um eletrocardiograma, cuja leitura é apenas uma, a de que há um novo e nobre sentimento que floresce cá dentro.

Toda a azáfama que existe, dentro deste coração, é a mesma do que a de uma casa que se prepara para receber o seu novo morador, que se ajusta e adapta à identidade do mesmo. Esta mudança, apesar de criar um desassossego inicial, é muito bem-vinda, até porque esta casa está mais do que pronta a acolher, calorosamente, quem queira cá viver e que esteja disposto a cuidar bem do lar para o qual é convidado.

Mais uma vez, a vida surpreendeu quando já não se esperava que o fizesse. Esta inquietude serena, se é que é possível tal combinação, não é mais do que um claro sinal de que o sentimento novo que desperta tem um forte potencial de vir ser o mais belo de todos.

Atinge-se uma paz interior quando se sente, no recanto mais profundo do nosso ser, que aquela pessoa pode ser a escolha certa, mesmo que, contraditoriamente, essa paz seja conjugada com uma agitação provocada pela ansiedade de querer que nada falhe. O que é compreensível, visto que temos consciência de que é muito difícil de alcançar tamanho sentimento e que oportunidades destas não nos caem no colo com regularidade. Aliás, sabemos bem o caminho que percorremos até aqui chegar e que, apesar de difícil, muito nos ensinou. Foram todas essas lições, assimiladas no passado, que me permitem, hoje, reconhecer em ti alguém de muito especial.

Sentados, um destes dias, num banco com vista para um cais, onde, a balançar ao sabor das ondas, se abrigava uma nau, tive a certeza de que estava na rota certa. Que não queria estar ali com mais ninguém, senão contigo. Acredito que tudo o resto virá a nós ao ritmo do tempo, e que as ondas que atravessaremos levar-nos-ão sempre a um porto seguro, que não será mais do que os braços um do outro.

Há qualquer coisa que me faz acreditar. Chamem-lhe intuição. Chamem-lhe loucura. Mas foi isso que já nos trouxe até aqui. Foi isso que fez com que deixasses de ser apenas mais um estranho de passagem pela minha vida. É esse acreditar, esse querer, que me faz continuar a dar cada passo, um em frente do outro, ao teu encontro, pondo de lado as minhas inseguranças.

Tenho uma nova esperança, dentro de mim, e essa esperança és tu. E, se esta esperança ainda não é amor, corre pelo menos o sério risco de o vir a ser.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.