E, de repente, já é dezembro

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Fotografia © Alexey Topolyanskiy | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alexey Topolyanskiy | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ia jurar que ainda ontem estávamos a secar a pele – dourada pelo sol – da água salgada – que tanto nos ajuda a limpar a alma – e, hoje, já andamos ocupados a encontrar um lugar quente para nos aconchegar o corpo. Se, no verão, fizemos questão de ser livres – muito gostamos nós de vaguear ao sabor deste clima que nos chega do mediterrâneo –, no inverno, lamentamo-nos por (ainda) não termos ninguém que nos aqueça os pés. É quando olhamos para o lado, num domingo à tarde, de chuva, que nos questionamos porque raio comprámos uma manta tão grande se a mesma continua fria. Falta-lhe o componente mais importante – o calor humano. E, entre pés frios e mantas vazias, resta-nos deixar absorver pelo espírito natalício que nos entra pelos olhos adentro, cada vez mais cedo.

E, de repente, já é dezembro.

Fomos habituados desde muito cedo a interiorizar que, em dezembro, todos somos bonzinhos. Talvez para perceber se o criador nos desculpa dos erros que cometemos nos outros meses e ainda conseguirmos ter debaixo da árvore de natal um qualquer presente – mesmo que seja o habitual par de meias da tia Gertrudes ou o pijama, quentinho, da Avó Maria. Em dezembro, ocupamo-nos, por excelência, com os outros. Foi assim que nos disseram que tinha de ser. Em dezembro, tudo tem de brilhar. Iluminamo-nos de luzes, embrulhamo-nos de presentes, desculpamo-nos com doces – neste mês, podemos -, disfarçamo-nos com enfeites e cobrimo-nos de agasalhos.

Em dezembro, andamos demasiado ocupados com os outros para perdermos tempo a ocuparmo-nos de nós. Até parece mal eu estar a partilhar esta opinião logo neste mês. Tinha onze meses para ser egoísta e tinha de me lembrar logo, neste mês, que é importante pensarmos em nós? Este mês não é para ti. Este mês é para os outros. É quando temos de ser mais solidários – sim, porque eu acredito que o somos o ano todo, certo? É o mês da família – porque também estamos o resto do ano em família, não estamos? É o mês em que damos a volta aos roupeiros para enchermos os sacos do Pingo Doce com roupa para a darmos a instituições de caridade – mas essas já nos conhecem de ginjeira porque as visitamos mais vezes, durante o ano, correcto? Dezembro é o mês, por excelência, onde somos feitos de amor – mas de amor somos nós feitos o ano todo. Só que não.

Não andaremos todos, um pouco, a abrilhantar a vida com luzes artificiais a mais para conseguirmos camuflar esta escuridão de que sofremos, por dentro?

É que, de repente, já é dezembro e ainda não cumprimos metade dos desejos que nos propusemos realizar este ano novo que, afinal já é velho. Os desejos, mais uma vez, ficaram nas passas – que até nem gostamos, mas tem de ser, porque senão não se realizam.

E, de repente, já é dezembro.

Mais um ano que passou e nós voltámos a adiar tudo. Voltámos a adiarmo-nos. A deixar para o próximo ano tudo aquilo que não fomos neste. O que parece que andamos todos a esquecermo-nos é que, no final, tudo o que deixámos por fazer, tudo o que relegámos para o ano seguinte, foram experiências que não vivemos, foram partilhas que não fizemos, foram sorrisos que deixámos cair. E isso não se compra em lojas, não se cobre com luzes e não se agasalha na alma.

E, de repente, já é dezembro e falta-nos fazer tudo. Falta fazer connosco aquilo que queremos fazer com os outros neste mês.

Mas ainda é dezembro. Ainda podes ser o teu melhor presente. Podes desembrulhar a tua melhor companhia. Marca encontro contigo antes de estares com os outros. Pega num copo, enche-o de vida e brinda a ti. Brinda-te. De vida. Com vida. Não procures nas lojas o que melhor podes oferecer. Pega no teu melhor sorriso e embrulha-o no papel mais brilhante que encontrares. Aposto que será um presente que muitos aguardam que dês. Que te dês. Sai de ti e vai ser feliz. Aquece as noites frias com o teu melhor abraço e jamais voltará a ser inverno. Porque mais brilhantes que as luzes serão os teus sorrisos; mais importante que os presentes serão os teus abraços, mais saborosos que os doces serão as palavras com que te alimentas e mais reconfortante que uma manta grande é sabermos que a podemos partilhar com quem mais desejamos – só ou com alguém. Experimenta ser a tua melhor companhia e nunca estarás sozinho.

E que, no final da noite – quando todos já tiverem recolhido –, regresses a ti e, antes de fechares os olhos, o teu último desejo seja voltares a estar contigo, amanhã.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.