Mulher certinha

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Fotografia © Larm Rmah | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Larm Rmah | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ela sempre tinha sido a mulher certinha! Por mais que soubesse os perigos de ter esse rótulo. Sabia que os olhos do mundo estavam virados sua direção. Sabia que, no dia em que ousasse pensar dar um passo errado, todos a julgariam. Bastaria apenas pensar, e já estaria a ser condenada.

Era a mulher atinada. A mulher que não cometia pecados. Disponível para todos. Sempre com um sorriso nos lábios e um abraço para confortar quem dela precisava. O seu coração materno obrigava-a a ser assim. Não existia outro vestido que lhe servisse. Não poderia calçar outros sapatos para caminhar na estrada, que a vida lhe dissera que era a sua.

Só que, na verdade, o mundo não a conhecia.

Todos a seguiam, todos lhe olhavam para o rosto e ninguém lhe conhecia a alma. Não se dava a conhecer. Ninguém sabia que sofria. Ninguém lhe perguntava o que lhe faltava, ou até o que lhe sobrava. Achavam-na perfeita. Não lhe encontravam defeitos. Exigiam-lhe que fosse feliz, sem perceberem a sua dor. Sempre assim tinha sido. Todos lhe acompanhavam a vida, sem se darem ao trabalho de saber quem ela era e do que sofria.

Quase todos os dias, os seus olhos verdes brilhavam, só que nem sempre era o brilho da alegria que eles refletiam. Tantas vezes, o brilho deles eram gotas translúcidas de tristeza. As lágrimas que ela escondia do mundo para poder chorar no seu canto. Normalmente, era no silêncio da noite que ela deixava que elas se soltassem e fizessem do seu rosto um rio de sofrimentos.

Foi nesse anonimato coletivo que ela cresceu e se fez mulher.

A mulher certa que sempre exigiu a si mesma seguir numa linha reta, virando as costas a qualquer desvio. Ela tinha que ser assim, porque o mundo não a aceitaria de outra forma. Tinha de ser forte, por mais que estivesse a sofrer. Só assim não se renderia aos olhares críticos do mundo. Vivia uma vida que não lhe servia. Pisava um chão que não lhe pertencia.

Cresceu e envelheceu.

Viu os anos a passarem sobre ela e os sonhos a afundarem-se com a idade. Até ao dia em que olhou de frente para a vida e abriu os olhos do coração. Escutou a voz do desconhecido, que lhe falou ao ouvido. O desconhecido que lhe soou a amigo. Um coração sem rosto, que falava com a sua alma sofrida. A sua alma que se escondia no seu corpo de mulher esquecida.

A voz ganhou a batalha. Fez-se escutar naquele corpo que parecia uma muralha. Ela, a mulher certinha, baixou as armas e deixou-se conquistar por aquela conversa. Decidiu deixar de carregar aquela bagagem que lhe pesava sobre os ombros. Percebeu finalmente que, durante anos, não tinha vivido.

Vivera sempre a vida dos outros. Ela dava a vida por eles. Era a mulher que sabia o que era o amor, sem nunca ter amado. Até àquele dia nenhuma melodia tinha despertado o seu coração, a ponto de ele ser capaz de dançar o bailado da paixão. E os sonhos que viviam adormecidos bateram palmas, aplaudiram aquele novo sentimento. Pediram permissão para dançar aquela música.

Então, a mulher certinha sentiu-se atrevida. Tomou o gosto à vida. Deixou-se levar pela paixão. Não quis saber do mundo, que a iria criticar. O mundo que não a conhecia e tanto dela exigia.

Quis comemorar o amor. Quis festejar a paixão, que, de um dia para o outro, lhe despiu aquele vestido justo, que usava desde que se conhecia. Aquela roupa que não a deixava movimentar-se. O desejo roubou-lhe a solidão e ofereceu-lhe a felicidade de sentir o amor a fazer-lhe cócegas na pele.

Tinha perdido tantos anos da sua vida. Agora era urgente aproveitar a intensidade daquele amor que invadira a sua vida. A mulher certinha continuaria a existir. Só que, agora, iria pensar mais nela. Fez um acordo com tempo. Precisava que a vida lhe emprestasse horas para amar o desconhecido que lhe tinha mostrado o que era viver.

Ela, a mulher certinha, pisou a linha do amor e virou as costas ao mundo!

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.