O caminho para a vitória

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Fotografia © AJ Montpetit | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © AJ Montpetit | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A cidade agitava-se num frenesim próprio da época. Poucos dias faltavam para a celebração do Natal. Naquela tarde preparava-me para estar presente num convívio realizado pelos militares. Aguardava um táxi. O trajeto era longo, alguns quilómetros. Notava-se um movimento mais intenso que o habitual. Onde estavam os táxis? Talvez um pouco mais à frente. Caminhei até à esplanada. Sentei-me. Pedi um refresco. Naquele preciso momento, fui invadida por uma recordação…

Acabava de chegar do mato e, ainda fardado, deambulava pela cidade. Naquela esplanada viu alguém com quem tinha «contas a ajustar». Num impulso, apontou-lhe a arma: «Vou fechar os olhos e contar até três… Desaparece ou disparo!»

Sim, desapareceu. O pânico foi geral, houve quem se refugiasse sob as mesas e cadeiras. Não houve disparo.

Despertei deste “sonho” e, mais uma vez, o meu olhar procurou um táxi, em vão! Voltei a caminhar. Ía sentindo algum cansaço. Contudo, não podia desistir. Quase sem querer dei comigo a reviver…

Nós sabíamos. Havia um processo pendente. Teria que ser resolvido. Para nós, era algo sinistro, já que se tratava de um auto por deserção! Deserção, porquê?

Tivera, em dada altura, uma licença de alguns dias. Deslocou-se à cidade. Foi impedido de regressar atempadamente por razões burocráticas que lhe eram totalmente alheias. Sendo assim, acabou por se apresentar com alguns dias de atraso. Não foi aceite qualquer justificação. O auto estava levantado!

O dia temido chegou. Aconteceu o julgamento em Tribunal Militar. Fui alertada pelo advogado: «Vai ser provado que ele não teve culpa. Contudo, vai ser punido. Conta com isso.»

A sentença foi dura. Pena de prisão!

Eu continuava a caminhar já sem esperança de encontrar um táxi. Sentei-me cada vez mais exausta. O calor e a ansiedade esgotavam-me. Finalmente, cheguei à Casa de Reclusão Militar. Na porta d’armas fui recebida pelo soldado: «Minha senhora, a festa já começou. Vou acompanhá-la.»

Dois braços afetuosos me acolheram num abraço aconchegante. Chorei. As lágrimas corriam abundantes pelas faces, como que para as refrescar, tão abraçadas estavam! Sentámo-nos. Os soluços continuavam. Veio a esposa do Comandante. Encaminhou-me para um recanto que me pareceu um paraíso, tanto pela sua frescura como pelo suave perfume de tantas e belas flores. Foi-me servido um agradável refresco. Conversámos. Mais serena, fui sentar-me junto do meu alferes. Como me sentia orgulhosa! Afinal, nada disto nos podia abater. Esperávamos o nosso primeiro filho! A felicidade batia-nos à porta. Estava iniciada uma nova etapa na nossa vida. Seria, agora, o princípio do fim de anos de convívio com esta guerra. A festa terminou. Um abraço recheado de beijos. Uma despedida já com sorrisos!

O Comandante ordenou ao seu chofer que me levasse a casa na sua viatura.

Em nós, crescia uma certeza. Não estava fácil alcançar a vitória, mas ela acabaria por ser nossa!

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MARIA REIS, a avó-sorrisos
Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».