P.S. Amo-te. Dorme bem.

4440
Fotografia © Scott Webb | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Scott Webb | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Hoje, acordei mais cedo do que o habitual. Abri a janela, estava nevoeiro e o sol espreitava envergonhado por entre duas nuvens que davam as mãos e amparavam aquela brilho envergonhado…

Sinto-me tão sem rumo:

Vesti aquele casaco velho preto, quente e que ainda tinha o teu perfume cravado, desde a última vez que partilhei contigo aquela noite gelada, que os nossos corpos e as nossas almas transformaram numa noite tórrida de inverno! Onde a chuva que se fazia ouvir lá fora se confundia com os nossos gemidos e as nossas gargalhadas! E o teu perfume mistura-se com o meu, sempre que uso este casaco e, sabes, teimo sempre em usá-lo de manhã. Assim, acordo mais inspirado e confortado só de pensar que, um dia, existimos, simplesmente já existimos. Lembras-te, quando existíamos com tanta intensidade que mais nada interessava? Que as horas viravam minutos, as noites tornavam-se dias e só o nosso mundo existia? Lembras-te quando ligavas a meio da noite só para que te abrisse a porta? Dizias que não conseguias dormir sem me dar um beijo de boa noite primeiro. E quantas vezes fiquei acordado, à espera que o telefone tocasse e que me pedisses para te abrir a porta? Quantas vezes desejara o teu beijo molhado e carregado de tanto fogo, mas de uma ternura única? E sabes o que faz de ti uma mulher tão especial? Sabes o que faz de ti «aquela» mulher especial? É que o teu fogo confunde-se e mistura-se com uma ternura e uma doçura completamente antagónicas, mas de uma perfeição extraordinária! Enfeitiçavas-me sempre que dizias que me desejavas mais do que nunca, mas com essa doçura no olhar. Tantas vezes te chamei maluca, pois fazias-me fazer coisas que jamais imaginei! Sair de casa em plena madrugada só para apanhar a chuva na cara e andar ao sabor do vento de mão dada contigo. E o pior de tudo é que não te conseguia dizer que não a nada!

Éramos um só. Duas almas que se uniram, completaram e equilibraram. Tudo o que um não tinha o outro conseguia ter em dobro. Que simbiose perfeita sempre que partilhávamos a manta que estava no sofá da tua casa e que tantos segredos guarda consigo! E, tantas vezes nossa cúmplice, tem consigo, risos, lágrimas, amor, desamor, desilusões, vitórias… Tenho-a guardada até hoje, acreditas? E dorme comigo e, sempre que me sinto mais inseguro, enrosco-me nela. Sabe-me a ti. Sabe-me a nós! Protege-me, abriga-me, tal como só tu o sabias fazer!

Sabes aquele poder que sempre tiveste sobre mim? As tuas mãos pareciam algodão sempre que tocavam o meu corpo ansioso do teu, ansioso de ti! Sabes daquela vez que quiseste ir à praia numa sexta-feira à noite e em que fizemos amor, entre as ondas, e que me fizeste contar até 7, porque era na sétima onda do mar que querias lançar a rosa que te ofereci na rua, quando encontrámos aquele senhor indiano a vender rosas a 5 euros? O poder do nosso amor vencia todas aquelas vicissitudes que se atravessavam no caminho. Tantas noites que não conseguia dormir porque tu não estavas. Tinha medos, medos que só tu entendias e tão bem conhecias a minha mente.

Ninguém nunca me conheceu como tu! És aquela que escolhi para me acompanhar neste percurso que é a vida! Fazes ideia do que isso é? Sabes a falta que me fazes? Tens noção do que é adormecer sem um «amo-te» e um «dorme bem» antes de apagar a luz?

Não fazes? Mas devias! Não consigo aceitar que te tenha deixado ir. Não consigo aceitar que me tenhas abandonado desta forma atroz! Já não te tenho. Já não nos temos. Foste de uma forma repentina e injusta. Sei que tenho de aceitar este triste desfecho para uma história quase perfeita! E hoje? Decidi escrever-te. Resolvi deitar fora a manta das recordações. Resolvi nunca mais vestir aquele velho casaco. Resolvi lembrar-me de ti, como a minha melhor recordação, como a minha única verdadeira história de amor e de loucura! E, hoje, meu amor, choro todas as lágrimas em cima da nossa fotografia nas últimas férias de verão e procuro consolar a minha dor nesse teu olhar doce e sorriso terno, mas cujo cabelo rebelde, tocado pelo vento, me faz tanto querer ter-te em mim outra vez. Hoje estás aí, em cima, e olhas-me por entre esse sol envergonhado. Que sortudos são todos esses que têm o dom da tua companhia! Aposto que à noite chamas alguém para dar uma vista de olhos na outra parte do céu, aquela menos angelical, menos celestial. Brincas com o fogo, não brincas? É nesse momento que me sinto possuído por uma vontade enorme de ti!

Mas, hoje, vou deixar-te ir de vez…

Vou ter-te em mim sempre. Vou ter-nos em mim até que a morte me leve a ti e que possamos dar um abraço envolvido em silêncio e ficarmos ali na nossa Eternidade!

Porque hoje consigo perceber que aqueles que amamos não morrem. Apenas partem antes de nós. E tu? Partiste antes de mim, mas continuas em mim!

P.S. Amo-te. Dorme bem.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorEstás sozinho!
Próximo artigoO caminho para a vitória
DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!