A memória do ser

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Podia ser um sonho como tantos outros. No entanto, ao contrário de muitos outros que já vivi, este eu não esqueci quando acordei. Acreditei, inclusive, que fosse o mais realista até então. Confuso, porque a dúvida persiste quanto a ter sido, ou não, só um sonho.

Não era preciso muito mais que um sorriso rasgado para me prender a atenção. Não era preciso muito mais que um olhar fixo para me intimidar. Não era preciso muito mais que um toque ao de leve para me fazer sentir viva. Não era preciso muito mais que meia dúzia de palavras que me levassem a crer que importo, que interesso, que mexi e mexo com alguma coisa.

A mesma imagem invadiu, diversas vezes, o meu pensamento, aquele em que entra o teu rosto encostado ao meu, os meus braços envolvidos no corpo teu, em breves e leves segundos, como que se de uma despedida se tratasse. E desde então que o mesmo ponto de interrogação surge, repetidamente, na minha cabeça, e a mesma dúvida sobre ti insiste em ficar. As respostas? Essas provavelmente nunca saberei e, enquanto assim for, irão permanecer como fruto da minha imaginação.

Tanto mistério. Tanta insegurança. Tanta necessidade de fazer parecer como sendo o melhor, quando é claro que algo não está bem e algo se passou ali naquele preciso momento.

É certo que não temos poder sobre tudo. É certo também que o que sentimos, o que sentimos por dentro ou mesmo à flor da pele, é posto, muitas vezes, de parte perante alguns obstáculos. Obstáculos, esses, que consideramos determinantes para nada fazer e deixando passar o que acreditámos ter sido.

Vi eu, no dito sonho que ainda acredito ter sido, que, afinal, há realidades bem mortas e sonhos bem vivos. Sonhos que me levam a afirmar que poderia facilmente viver da fantasia. No entanto, seria uma simples espetadora da minha própria história.

E, enquanto de forma entusiástica revejo e tento transcrever o que sonhei, esqueço-me do mais importante. É que este sonho foi muito mais além destas escassas palavras escritas. Decidi guardar os pormenores para mim. Aqueles detalhes que provariam de forma clara a sintonia e empatia que existiu.

Ou não será verdade que podemos ser muito mais que meros figurantes das nossas próprias vidas?

Em momento algum desta história, referi que a personagem principal sou eu. Referi?
No entanto, poderia gentilmente ser e sê-lo-ia com muito gosto.

Afinal, as sonhadoras identificam-se livremente só pelo facto de o serem.

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ANDREIA DE CASTRO, a princesa
Se fosse o seu pai, dir-nos-ia: «A Andreia é uma princesa... Só ainda não sabe que o é.» E, para ele, isto definiria tudo. Porque a Andreia é amor. Amor pelos outros, mas não tanto por ela própria. Porque a Andreia é família: vive para e por eles. Porque a Andreia é o sorriso, a lágrima, o vento, o sol, o silêncio, o mar e o céu sem limite. E, além de tudo disto, a Andreia é ainda solitária, viajada, artista, insegura, auto crítica, beijoqueira. É a princesa que o pai sempre quis ter. E que, até ao parto, esperavam que fosse um menino... Mas a Andreia, porque também é sentido de humor, enganou tudo e todos. E não se limitou a nascer menina. Nasceu princesa.