Sentir com a pele

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Fotografia © Felix Russell-Saw | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Felix Russell-Saw | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Normalmente, associamos o tato às mãos, porém este sentido estende-se por toda a pele. Não tocamos só com as mãos, mas com todo o corpo.

O tato, infelizmente, é um sentido subestimado, talvez porque o tenhamos como garantido. Ou, talvez, porque os outros sentidos distraem-nos de usufruir, na plenitude, as tamanhas sensações que este nos transmite, e que são inigualáveis.

Ora, experimentem o seguinte exercício.

Mergulhem no silêncio. Fechem os olhos. Segurem a mão de quem amam. Acariciem-lhe os dedos, um por um, muito ao de leve. Desenhem-lhe os lábios, suavemente. Afaguem-lhe o rosto, delicadamente. Percorram as linhas e as curvas, os altos e os baixos do seu corpo, docemente. Sempre e só com as mãos. Um toque sussurrado à pele. Deixem o arrepio percorrer-vos. Deliciem-se.

Mais uma vez, também de olhos fechados, repitam o mesmo exercício, mas, desta vez, apenas com os lábios. Gentilmente. Esqueçam o tempo. O relógio aqui não bate, para. Este é um jogo de paciência e prazer. Permitam-se usufruir. Deixem que a pele que tocam se derreta sob o calor dos vossos lábios. Ignorem a urgência que cresce. E não se esqueçam de respirar.

Agora, por fim, atrevam-se, combinem, alternem. Mãos, lábios e corpo. Porque o corpo também toca, também se expressa. Toquem e deixem-se ser tocados. Deixem a pele sentir. Falar. Gritar.

É tão transcendente o poder do toque, não é? Eleva-nos ao prazer, ao bem-estar, ao conforto.

Entendem-me, agora? E este foi só um exemplo. Se calhar, o expoente máximo do sentir com a pele. Mas todos encontramos, facilmente, em nosso redor, nas nossas vidas, outros exemplos, bem mais simples e inocentes.

Já todos nos apercebemos de que há pessoas que falam através do toque mais do que outras. Que expressam o seu carinho, a sua preocupação, através de gestos. Uma mão no ombro, no braço ou nas costas. Uma carícia inocente de conforto e carinho. De uma mãe para o filho, entre amigos, entre amantes. Um abraço apertado, um beijo na testa. São tudo expressões de carinho através do toque.

Eu sou assim também. Gosto de expressar as emoções pelo tato. Gosto de acarinhar, mimar e abraçar. Às vezes, já o faço de forma inconsciente, espontânea. Jamais conseguirei amar se não o puder fazer também deste modo. Aliás, nem o sei fazer. Vivo com as emoções a transbordar no peito e tenho que as libertar das várias formas possíveis ou sentir-me-ei asfixiada.

É pena que, muitas vezes, tenhamos que nos reprimir, porque nem todos se sentem confortáveis a falar através do toque e, então, guardamos para nós esta vontade de tocar por respeito ao espaço do outro. É pena, porque privam-se de algo maravilhoso.

Portanto, se amam, se gostam, se têm afeto, demonstrem-no. Usem todos os sentidos, mas não menosprezem o tato. Ele faz tão parte de nós que mal damos por ele. Prestamos-lhe pouca atenção.

Desliguem-se do mundo e sintam. Toquem e deixem-se ser tocados. Sintam aquilo que a vossa pele vos diz. Amizade, carinho, preocupação, amor e desejo. São tantos os sentimentos que podemos reconhecer num simples toque.

Oiçam mais a vossa pele. É um conselho que vos dou.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.