Olho morto: Perdido entre o negro III

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
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Os seus pés pisavam as folhas caídas do outono. Os seus cabelos deslizavam entre o vento fresco da manhã, porém nem assim o seu corpo desistira de lutar… Passara a noite a fugir de quem a perseguia e nem os seus olhos eram capazes de acreditar no que tiveram ambos visto.

Por fim, o seu corpo desistira, usando o tronco de um enorme pinheiro como encosto.

«São apenas dois minutos…», repetia para si em rápidos sussurros.

As suas mãos tremiam, mas não a impediram de se aconchegar, entregando os seus braços em volta das suas pernas, a sua cabeça pousara-se entre os seus joelhos.

Estava imunda… A terra cobria o seu corpo e uma pequena quantidade de folhas se mantinha nos seus longos cabelos negros e lisos, onde, anteriormente, Pedro lhes tivera tocado com tanto amor. Ele, enquanto a perseguia, recordava os momentos em que ambos olhavam o céu estrelado no cais da vila; recordava-se do dia em que se conheceram na praia. Fora exatamente nesse dia em que os seus olhares se cruzaram, onde criaram explosões interiores de sentimentos tão fortes nunca antes sentidos por aquelas duas almas…

Esta olhava o nada, com a cabeça pousada entre os seus joelhos, relembrando-se do dia em que o tivera perdido. Fora precisamente no mesmo sítio que ambos se uniram, tornando-se em apenas um ser. Uma criatura.

— Sei que estás aqui. – Olhou para os dois lados. – Consigo ver-te, Pedro. – De seguida, os seus olhos dirigiram-se ao olhar perdido de Pedro.

— Viste-me morrer e não fizeste nada… – Uma lágrima escorrera a face do fantasma ali presente, encarando o único amor que alguma vez tivera na sua vida. – Como pudeste? – Inquiriu um tanto furioso. Ele sentira-se desconcertado e perdido. Era apenas uma alma penada à procura do seu caminho.

Mónica levantara-se lentamente e levara as suas mãos sujas à face pálida de Pedro, sem dar importância com qualquer deformação que tivesse devido ao acidente.

— Podes tocar-me! – Disse Pedro, atónito. Parecera que o seu coração voltara a sentir algo. Algo adormecido.

— Não percebes? – A sua outra mão tocara na face deformada de Pedro, corroída pela água onde tivera perdido a vida. – Estamos juntos outra vez. – De seguida, a sua cabeça rodara juntamente com o seu corpo para o tronco onde ela mesma estava encostada.

Ali estava o seu corpo inanimado, morto e cansado. Não iria fugir mais. O perigo estava presente e o inimigo iria ser aquele que alguma vez seria o traidor.

Agora, Mónica tinha uma missão: salvar os restantes dos seus amigos: Marta e Valter.

E a mentira estava presente como sempre esteve. O passado de Mónica era invisível para os olhares alheios, porém sabia que nunca tivera amado Pedro, mas, sim, o Filipe.

— Amo-te, Mónica. – Suspirou Pedro sem se aperceber do perigo.

Os seus braços circularam o corpo de Mónica e esta sorria com malícia.

Não era a morte que o ia fazer escapar, e o esquecimento de Pedro sobre a sua morte era temporário… Com o tempo, a alma de Pedro iria lembrar-se de quem realmente o empurrara ao mar, apercebendo-se de que não se afogara, nem que aquilo era um jogo, mas, sim, pura realidade.

E o seu espetro desvanecera. Sentia Valter por perto e realmente estava. Avistara a sua casa ali ao de longe — fitava a janela do seu quarto ao fundo dos enormes pinheiros por cima deles mesmo. A sua alma pairava, sozinha. Olhara à sua volta, mas já não via a Mónica. Estava novamente sozinho. Novamente com fome de sangue.

Valter sempre soube que cicatrizes iriam surgir do sucedido.

Um novo mártir emergia. Porém, o seu alívio de se ver livre de Pedro aparecera momentos depois do seu funeral.

É tarde demais. A escuridão flutuou pela janela do seu quarto, entrando nos seus sonhos que tanto o fazia distrair-se da penosa realidade.

O alma do defunto, Pedro, pairara até à sua mente. Aos seus sonhos.

Uma poeira surgira na porta de ferro ao fundo do corredor. Tinha medo. Muito medo…

Valter olhara para o seu caminho já percorrido e uma onda de terror o rasgara por completo. Os seus pés batiam no soalho negro cada vez mais rápido. Abrira a porta em pânico e entrara numa nova escuridão. Tão negro que era o quarto… Nada se via. Era como se estivesse com os olhos cerrados. A temperatura era fria e o seu corpo estava a gelar.

Mãos surgiram do nada, da tal escuridão que o consumira e avistava a ilusão.

Pedro.

«Isto é um sonho!», repetia sucessivamente, olhando em sua volta. Os seus olhos rolavam numa brutalidade exagerada à procura da aparição oculta. Tão negra que seria…

— Isto obviamente que não é um sonho. – Respingou Pedro, que emergira de súbito. Valter ficara firme com os seus punhos cerrados.

— E não podes fazer nada. – Respondeu. Os seus olhos semicerraram e a sua boca sorrira de uma forma provocante.

Pedro levou as suas mãos à sua barriga, penetrando-lhe os dedos na zona intestinal com uma força sobrenatural e abrira-a.

Valter soluçou e vira como os seus órgãos caíam no chão. O sangue fizera lembrar-lhe o afogamento e, com as suas últimas forças, dissera:

— Que bem fez Mónica em te matar. Seu hipócrita! – E acordara.

Levantara-se e correra para o quarto de banho até ao espelho.

Pedro aparecera no reflexo do seu espelho, desviando o seu olhar para a barriga de Valter.

— Que bem fiz em te matar. – Sorriu maleficamente. – Hipócrita.

Valter olhara sua barriga onde aparecera um corte que se abrira. Da sua boca saíra o sangue. A culpa. O seu destino.

E caíra no chão. Morto.

— Devias comer as tuas próprias fezes! – Gozou Pedro, soltando uma enorme gargalhada. E desaparecera.

Marta, prepara-te!

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.